o dia que elvis costello foi banido do saturday night live (let it blog)

em 17 de dezembro de 1977 os sex pistols, no auge do hype, foram convidados a se apresentar no saturday night live. sabe como é, programa ao vivo, tudo tem que dar certo e sair conforme o planejado se não o risco de dar merda é altíssimo. como os sex pistols nunca foram uma banda muita correta é óbvio que alguma coisa tinha que dar errada. na última hora eles tiveram seus vistos de entrada nos eua negados e não puderam fazer sua estréia na tv americana no programa de maior audiência do país, como era o plano de seu empresário, o picareta (e recém falecido) malcolm maclaren. foi-se o sonho de estrear direto no topo das paradas.

para tapar o buraco, lorn michaels, então chefe do snl, recorreu a elvis costello que estava de passagem (com sua  banda, os the attractions) por nova york. naquela época, costello ainda não tinha nenhum disco lançado na terra do tio sam. seu debut, “my aim is true”, tinha sido lançado apenas na inglaterra e só veria a luz do dia na américa no ano seguinte.

no entanto, alguns singles do cantor já eram tocados nas rádios americanas e, pensando nisso, sua gravadora o obrigou a tocar a música “less than zero” (já conhecida do público) no snl a fim de amaciar a audiência para o lançamento do vindouro disco.

mas elvis não se sentia nem um pouco a vontade com a pressão da gravadora e insistia em tocar a música “radio radio”, uma crítica aos meios de comunicação mainstream que estavam se preocupando mais com vendagens do que com qualidade.

o curioso é que “less than zero” também era uma crítica de costello, desta vez contra oswald mosley, político neo-fascista da inglaterra. mas acho que a columbia records não sabia disso.

enfim, a pressão da gravadora prevaleceu e elvis foi escalado para tocar ao vivo no programa e satisfazer os executivos da columbia. câmeras posicionadas, a banda é anunciada e começa a tocar “less than zero”. menos de dez segundos depois costello manda a banda parar, conta até quatro, mete os acordes de “radio radio” e começa a cantar a música proibida a plenos pulmões.

eu até botaria o vídeo aqui mas não achei no youtube e (ignorante que sou) não consegui embedar o player que eu encontrei. mas dá para assistir aqui. o baterista até tira um sarrinho do empresário dos pistols com uma camiseta onde lê-se “thanks malc”. repare na cara de raiva do cantor, quase espumando pela boca.

resultado do episódio: elvis costello foi literalmente banido do saturday night live. só seria “perdoado” e voltaria a aparecer no programa em 1989.

em 1999, quando o programa completou 25 anos no ar, lorn michaels, aquele mesmo que havia rompido relações com o cantor, fez um mea culpa e convidou o cantor para a cerimônia. na ocasião os beastie boys estavam escalados para tocar o hit “sabotage”. eis então que costello e os rappers do brooklyn resolveram… “sabotar” o programa novamente. enquanto a banda dava os primeiros acordes da música, elvis invadiu o palco e interrompeu apresentação da mesma forma que havia feito 22 anos antes.

mandou na lata: “desculpe senhoras e senhores. não há motivos para tocar esta música”. contou até quatro e todos entoaram “radio radio”. foda.

o episódio entrou para a história da tv americana. anos mais tarde o cantor disse que seu ato de 1977 foi inspirado no que jimi hendrix havia feito em 1969 no programa caretaço da apresentadora lulu, uma espécie de angélica da inglaterra. na ocasião, hendrix fora escalado para tocar “hey joe” mas na hora h mandou uma versão cheia de feedback de “voodoo child”. depois quando voltou a “hey joe” interrompeu a apresentação e mandou “sunshine of your love” em homenagem ao cream que havia acabado de se separar.

com a barulheira infernal e vendo o tempo do programa estourar, a bbc simplesmente resolveu desplugar os instrumentos da banda e encerrar o programa.

hendrix é eterno desbunde. aprecie.

sentiu a diferença daquela época para a “era tiger woods” em que vivemos?

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de Let It Blog

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Malcolm McLaren

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Álvaro Pereira Júnior

Malcolm McLaren, ou todo punk é de butique

Desculpe esse papo chato de “minha geração”, mas morreu na semana passada um cara fundamental para, pois é, a minha geração-Malcolm McLaren, inventor do punk inglês.
O que vale dizer inventor do punk, ponto, porque foi da Inglaterra que a fúria punk se disseminou.
Malcolm Robert Andrew McLaren, filhinho de papai criado pela avó chiquésima e distante, era o armador-mor, o trambiqueiro genial, o dândi manipulador, o teórico pop. Foi ele que criou os Sex Pistols e criou, acima disso, a mística dos Sex Pistols. Gênio, era, mas gostava de se fazer de mais genial ainda. Mostrava-se como o grande Svengali que pegou um quase mendigo, Johnny Rotten, mais três músicos medíocres e formou a banda que mudou tudo.
Mais ou menos. Rotten não era uma besta, ao contrário -era um gênio manipulador igual ou maior do que o próprio McLaren. E os outros três Pistols eram músicos experientes, já tocavam muito antes da banda. A estética e a ética eram do “do it yourself”, vá lá e faça, mas a produção do primeiro álbum foi entregue a um macaco velho, Chris Thomas, especialista em hard rock e progressivo, justo o que os Pistols vinham destruir.
McLaren foi casado, ou meio casado, ou quase meio casado com a estilista Vivienne Westwood. Eram sócios na butique Sex. Mais que loja, um “hang-out” de desocupados e párias em geral. Como Johnny Rotten, então John Lydon. Segundo o próprio McLaren, o objetivo de suas lojas era “não vender absolutamente nada”.
Depois dos Pistols, McLaren continuou inventando bandas, provocando. Lançou disco como artista pop. Mas ele já tinha feito os Sex Pistols. Já tinha feito tudo.