GRANDES NAVEGAÇÕES

choravas a partida

da nau

em condições de tempo

desfavorável

situação

inominável

golpes no ar

irremediável decisão

seguir e não voltar

imensurável a revolta

da tripulação

tão distantes do velho mundo

todos os estandartes

rasgados

gritos e estardalhaços

amotinados

todos os medos

e pavores presos

ao pensamento

mastros estraçalhados

emborcada a embarcação

corações sem lastro

ventos arredios

o mar em tempestades

agitado

cuspindo todas as feras

antes submersas.

BARBEARIA

nuvens

no céu alaranjado

pensamentos

escuros

a dúvida não esclarecida

sobre a eternidade

e os dias continuarão

estendidos

como tapetes sujos

nos corredores do velho casarão

mais uma vez

na cadeira do senhor  Caetano

cortando o cabelo

pouco

que resta

na cabeça.

Neve Noturna

Mesmo às cobertas frio, ao travesseiro
e na janela o claro brilho súbito
Profunda noite assombra a neve em peso
ouvem-se soa racham-se os bambus

Bai Juyi
(Antologia da Poesia Clássica Chinesa, Dinastia Tang)

WALKING AROUND

ACONTECE que estou cansado de ser homem.
Acontece de entrar no alfaiate e no cinema
murcho, impenetrável, como um cisne de feltro
navegando em uma fonte de água e cinzas.

O cheiro de cabeleireiro me faz chorar aos berros.
Só quero um descanso de pedras ou de lã,
só quero não ver lojas, nem jardins,
nem mercadorias, nem óculos, nem elevadores.

Acontece de estar cansado dos meus pés, minhas unhas
meu cabelo, minha sombra.
Acontece que estou cansado de ser homem.

Ainda assim, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um golpe na orelha.
Seria lindo
sair pelas ruas com uma faca verde
dando gritos até morrer de frio.

Não quero continuar sendo raiz nas trevas,
vacilante, hirto, tiritando de sono,
lá embaixo, nas entranhas molhadas da terra,
sorvendo e pensando, comendo todo dia.

Não quero para mim tanta miséria.
Não quero continuar raiz e túmulo,
subsolo solitário, porão com mortos
endurecidos, morrendo-me de pena.

Por causa disso segunda-feira arde como petróleo
quando me vê chegar com cara de cárcere,
e uiva em seu percurso feito uma roda ferida,
e dá passos de sangue quente ao anoitecer.

E me empurra a certos rincões, a certas casas úmidas,
a hospitais onde os ossos saem pela janela,
a certas sapatarias com cheiro de vinagre,
a ruas medonhas como fissuras.

Há pássaros de cor de enxofre e horríveis intestinos
dependurados nas portas das casas que odeio,
há dentaduras esquecidas em uma chaleira,
há espelhos
que deveriam ter chorado de vergonha e terror,

há guarda-sóis em toda parte, e venenos, e umbigos.

Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, cruzo edifícios de escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupas penduradas em varais:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sujas.

SUCEDE que me canso de ser hombre.
Sucede que entro en las sastrerías y en los cines
marchito, impenetrable, como un cisne de fieltro
navegando en un agua de origen y ceniza.

El olor de las peluquerías me hace llorar a gritos.
Sólo quiero un descanso de piedras o de lana,
sólo quiero no ver establecimientos ni jardines,
ni mercaderías, ni anteojos, ni ascensores.

Sucede que me canso de mis pies y mis uñas

y mi pelo y mi sombra.
Sucede que me canso de ser hombre.

Sin embargo sería delicioso
asustar a un notario con un lirio cortado
o dar muerte a una monja con un golpe de oreja.
Sería bello
ir por las calles con un cuchillo verde
y dando gritos hasta morir de frío.

No quiero seguir siendo raíz en las tinieblas,
vacilante, extendido, tiritando de sueño,
hacia abajo, en las tripas mojadas de la tierra,
absorbiendo y pensando, comiendo cada día.

No quiero para mí tantas desgracias.
No quiero continuar de raíz y de tumba,
de subterráneo solo, de bodega con muertos
ateridos, muriéndome de pena.

Por eso el día lunes arde como el petróleo
cuando me ve llegar con mi cara de cárcel,
y aúlla en su transcurso como una rueda herida,
y da pasos de sangre caliente hacia la noche.

Y me empuja a ciertos rincones, a ciertas casas húmedas,
a hospitales donde los huesos salen por la ventana,
a ciertas zapaterías con olor a vinagre,
a calles espantosas como grietas.

Hay pájaros de color de azufre y horribles intestinos
colgando de las puertas de las casas que odio,
hay dentaduras olvidadas en una cafetera,
hay espejos
que debieran haber llorado de vergüenza y espanto,
hay paraguas en todas partes, y venenos, y ombligos.

Yo paseo con calma, con ojos, con zapatos,
con furia, con olvido,
paso, cruzo oficinas y tiendas de ortopedia,

y patios donde hay ropas colgadas de un alambre:
calzoncillos, toallas y camisas que lloran
lentas lágrimas sucias.

(Pablo Neruda)

Ó do MUNDO

Curitiba esse lugar nenhum entre todos os lugares que conheço
que desconheço cada rua cada parque cada casa cada loja cada esquina
e reconheço uma lembrança que invento parecida com as coisas
que vivi na minha vila distante seiscentos quilômetros dali
lembrando da criança que fui no tempo antigo um buraco negro
da memória.
província ou modelo da perfeita organização e do bom planejamento?
meus meninos ali crescendo uma outra infância indiferente a tudo que fui e sou
outro mundo quase falamos outra língua!
ainda assim somos felizes no encontro e na saudade que resta do desencontro.
é outra encarnação encará-la cidade quando desço a Rua Quinze ou cruzo
a Amintas e a Ubaldino a casa solar do vampiro esquina mais noturna que conheci.
percorrê-la cidade dos seus cantos mais distantes ao centro. pérfido encanto.
tantos jardins há tanta grama verde e pinheiros e pinheiros e pinheiros e pinheiros
parece que só pinheiros. só. caminhando entre pinheiros.
atravessar seu miolo tão pétreo tão solene onde marcham fúnebres seus habitantes.
assustado cara a cara com a estátua do Barão do Rio Branco.
escondido no beco atrás da
igreja matriz. um piá merdoso.
Curitiba tão real. tão fictícia.