A Tears Go By

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Sólido Amarelo

Sólido Amarelo
(Marcos Manulu / Luís R. Costa)

Tem que ter calor
Tem que ser singelo
Um pouco de Rimbaud
Outro, de farelo

Em Portobello Road
Na praia ou no deserto
Um som de luz, Van Gogh
Hermeto, um marmelo

Sólido Amarelo

Na estrada do sol
Num tempo sereno e certo
Promessas de um dia bom
Silêncio e mistério

Até poderia ser blues
Um Tim, um martelo
Mas o caminho desse som
É sólido e amarelo

70 anos do Caetano

Caetano faz 70 anos. Quando gostávamos dele, tantos anos atrás, ele ainda era, por falta de expressão melhor, um homem maduro — aquela imagem que as crianças têm dos pais e dos tios e que não sabem ser passageira. Velhinhos eram só os avós, nossos ou dos outros, uma outra categoria de gente. Avós sempre foram velhinhos para as crianças. Velhinho era o Dorival Caymmi.

Agora Caetano faz 70 anos. Penso em como será vê-lo velhinho tal qual o Dorival Caymmi da minha cabeça de criança, sempre com 80 anos. Caetano com 80 anos, velhinho, Caymmi. Penso em como será ver o Caetano morrer de velhice. Caetano morto.

Mas para ver Caetano completar 80 anos primeiro terei de completar 50. Pois é, meu caro, 50 anos. Eis o tempo em toda a sua natureza. Preciso de silêncio para contemplar essa ideia.

O tempo é nosso mundo comum, nossa unidade, nossa identidade. Ninguém tira o corpo fora para assistir à banda passar. O tempo nos carrega junto. Nunca verei o Caetano velhinho sem que eu me torne velho também. Pela mesma razão, nunca verei um filho meu se tornar velho, porque ainda não o tive e não haverá tempo suficiente para mim quando eu o tiver. Essa ideia do tempo acalenta uma compaixão sincera pelas pessoas. Estamos juntos no tempo. Caminhamos todos para o fim.

Parabéns, Caetano.

Olé dialético

… No centro do livro [Verdade Tropical, de Caetano Veloso] está uma frase de 32 linhas, um verdadeiro olé dialético (e como tal um pouco forçado), em que a sintaxe procura sugerir, ou captar, a complexidade do processo real. Pela abrangência da visão, pela sua potência organizadora, pelo teor de paradoxo e pela capacidade de enxergar o presente no tempo, como história, é uma façanha. Assim, a revolução que João Gilberto operou nas relações entre a fala, a linha melódica e a batida de violão 1) tornou possível o desenvolvimento pleno do trabalho de seus companheiros de geração; 2) “abriu um caminho para os mais novos que vinham chegando”; 3) deu sentido às buscas de seus predecessores imediatos, que “vinham tentando uma modernização através da imitação da música americana”; 4) superou-os todos pelo uso que soube fazer do cool jazz, “que lhe permitiu melhor religar-se ao que sabia ser grande na tradição brasileira”, da qual justamente os modernizadores queriam fugir; e 5) “marcou, assim, uma posição em face da feitura e fruição de música popular no Brasil que sugeria programas para o futuro e punha o passado em nova perspectiva — o que chamou a atenção de músicos eruditos, poetas de vanguarda e mestres de bateria de escolas de samba”. Como é próprio da escrita dialética, o mesmo sujeito de frase — no caso, a revolução musical trazida por João Gilberto — comanda verbos muito díspares, que por sua vez comandam objetos (sujeitos) também eles desiguais, pertencentes a domínios separados e às vezes opostos da realidade, que assim ficam articulados por dentro. Tanto sujeitos como verbos atuam em várias dimensões ao mesmo tempo, as quais refluem sobre o seu ponto de partida, que existe através delas e adquire uma unidade ampliada e imprevista, que é o selo da dialética. Na realidade e na prosa, figuras apartadas pela especialização e pelo abismo das classes sociais, como os músicos eruditos, os poetas de vanguarda e os mestres de bateria de escolas de samba, na bela enumeração de Caetano, são colocadas em movimento associado e produtivo, saindo do seu isolamento. A fluidez se torna vertiginosa quando a inovação não afeta apenas o presente e o futuro, como quer o senso comum, mas abala também o passado, que deixa de ser imutável e se recompõe sob nossos olhos. A viravolta é um micromodelo do alcance total que tem uma revolução, mesmo restrita.

(Roberto Schwarz, Verdade tropical: um percurso do nosso tempo)

SINALEIRO INSTANTE

Para Ferréz e Drummond

 

SONHO. O menino – Na faixa de pedestres, entre tochas, malabares e pululantes laranjas, ele carrega sua caixa de balas. Sirene e outros ruídos ensurdecem uma tarde sépia. O homem – Observa a luz vermelha e deseja; terminar mais um dia empregado, em paz, esquecer, sumir, viajar, viver, alimentar esperanças, enquanto existirem as últimas horas de um domingo que ainda não chegou. PENSAMENTO. O menino, distraído – O padrasto, o bar, a garrafa, a(s) dose(s), o barraco, o bairro, a falta d’água, os nóia, o corre, a pressão, a aula vaga ou a escola lacrada, a mãe na batalha, só. O homem – A pasta de documentos, rádio ligado, a estação de notícias, as reuniões “blablablá”, a “guilhotinesca” ligação do chefe, a prestação atrasada da casa, cartas da Serasa, conserto do vazamento, as contas prá pagar, o trânsito louco ou normal de sexta-feira, tudo. REALIDADE. Eles – No cruzamento, sinal verde, aceleração, o olhar sem reação, cada um, o seu caminho, a sua cruz, cada um, então.

 

Altamiro Cirino