Campanha presidencial

Nesta época de pleno exercício da democracia brasileira, quem estiver interessado na mágica materialização de candidatos invisíveis – claro que me refiro especificamente a três dos quatro concorrentes do campo de esquerda à eleição para presidente da República –  terá aqui uma rara oportunidade:

http://www.tvbrasil.org.br/3a1/

Obs. 1: a TV Brasil é aquela emissora pública inaugurada, há não muito tempo e em meio a muitos rolos, pelo governo federal. Em São Paulo, sintoniza-se no canal 62 UHF (é só digitar o número, portanto).

Obs. 2: reparem como o candidato Eyeyeymael está simpático na foto da página que lhes indico. Fico até pensando que ele talvez já não seja tão desfavorável à legalização do casamento homossexual.

Indie 2010

Isso aqui parece muito bacana. Dentre o significativo número de contemporaneidades cinematográficas, haverá uma extensa mostra dedicada a um aparentemente badalado diretor japonês de sobrenome famoso (mas parentesco falso), e outra que apresentará alguns títulos daquele tailandês chato e de nome impronunciável: sim, falo do autor do insuportável “Mal dos Trópicos”, sujeito a quem pretendo dar uma nova chance, a fim de entender por que é tão amado pelos entendidos (embolsou mais um prêmio em Cannes, agora a Palma de Ouro da última edição). De quebra, a oportunidade de apreciar as novas produções de Todd Solondz e Claire Denis (“35 doses de Rum”). Tudo de graça, no Cinesesc. Eu, como sempre, já arquitetei uma extensíssima programação. (E olha que dessa vez vou cumpri-la.)

 

O melhor do cinema contemporâneo na mostra Indie 2010


Cena do filme Futuro Brilhante, do diretor Kiyoshi Kurosawa, que está na programação da mostra

O CineSESC apresenta de 16 a 30/9 a mostra Indie 2010, que reúne 70 filmes de 12 países, trazendo ao público grandes nomes do cinema contemporâneo.

Indie quer dizer independente. Pelo quarto ano em São Paulo, a atividade conta com 58 sessões, em que são exibidos 49 longas e 21 curtas. A mostra aconteceu pela primeira vez em Belo Horizonte e chega a sua 10ª edição, reafirmando que indie não é somente uma definição econômica de produção, mas sim, uma representação do que há de mais interessante, vivo e instigante no cinema contemporâneo internacional.

Kiyoshi Kurosawa e Apichatpong Weerasethakul são os destaques das duas grandes retrospectivas que o Indie 2010 apresenta. A mostra dá ao público a oportunidade de assistir a uma das maiores retrospectivas da obra do diretor japonês Kurosawa, com a exibição de 22 filmes. Já o premiado diretor tailândes Weerasethakul tem sua trajetória profissional apresentada com a projeção de 5 longas e uma seleção com 20 curtas, programada e selecionada pelo próprio cineasta.

A mostra mundial do Indie 2010, dedicada aos recentes lançamentos do cinema internacional, traz a estreia em São Paulo dos filmes Hahaha, de Hong Sang-Soo, A vida durante a guerra, de Todd Solondz, Orly, de Angela Schanelec, e uma nova safra de diretores americanos, como Aaron Katz, Lena Dunham e Matt McCormick.

Ainda faz parte da programação um documentário polêmico criado pela escritora Virginie Despentes, que trata o pornô feminista, além dos trabalhos de novos diretores romenos e sul-coreanos. A mostra é uma correalização de SESC SP e Zeta Filmes.

Saiba mais:
destaques da programação
site oficial da mostra

o que: Indie 2010 – mostra de cinema mundial
quando: 16 a 30/9
onde: CinesSESC I R. Augusta, 2075 – (11) 3087-0500
ingressos: Grátis

Destaques da programação

Retrospectiva Kiyoshi Kurosawa: 22 filmes (todos em 35mm). Os vários estilos e gêneros da obra de Kurosawa. Nascido em 19 de julho de 1955, em Kobe, na província de Hyogo, no Japão, Kurosawa começou a dirigir filmes independentes em 8mm quando estudava Ciências Sociais na Universidade Rikkyo. Kurosawa passou os anos seguintes aprendendo com os diretores Kazuhiko Hasegawa e Shinji Somai. Estreou comercialmente, em 1983, com o longa-metragem Guerras de Kandagawa, um legítimo pinku eiga (os pornôs leves japoneses).

A restrospectiva exibe também as séries sobre detetives e Yakuza feitas para a televisão nos anos 1990, além dos filmes que o consagraram como Cure [Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cinema de Yokohama, 1999]; Charisma [Quinzena dos Realizadores, em Cannes 1999], Permissão para Viver [Fórum do Festival de Berlim, 1999]; Ilusões Inúteis [Mostra Internacional de Veneza, de 1999], Pulse [Prêmio da Crítica na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2001], Futuro Brilhante [competitiva do Festival de Cannes 2003]; até Sonata de Tóquio [prêmio do júri na mostra Un Certain Regard, em Cannes 2008]. A retrospectiva tem apoio da Fundação Japão.

Retrospectiva Apichatpong Weerasethakul: 25 filmes [5 longas, 1 média-metragem, 19 curtas]. Nascido em Bangcoc, na Tailândia, em 1970, Apichatpong realiza instalações e obras conceituais. Premiado diretor de cinema, é um dos grandes expoentes do cinema mundial. Formou-se em Arquitetura no ano de 1994, pela Universidade de Khon Kaen, cidade onde seus pais médicos trabalhavam num hospital. Mas foi nos EUA que estudou cinema, no Art Institute of Chicago, concluindo seu mestrado em 1997. Em 1999, ele fundou sua produtora Kick the Machine e começou a produzir seus próprios projetos, dando apoio a outros artistas experimentais e independentes na Tailândia. Recebeu a Palmo de Ouro em Cannes 2010.

O Indie exibe seus longas: Objeto Misterioso ao Meio-Dia [2000], Eternamente Sua [premiado na mostra Um Certain Regard, Cannes, 2002], As aventuras de Iron Pussy [2003], Mal dos trópicos [prêmio do júri em Cannes 2004], e Síndromes e um século [concorrente na Mostra de Veneza 2006].

A retrospectiva traz também quatro programas de curtas, com 20 filmes, selecionados pelo diretor especialmente para o Indie. Dentre os curtas estão os seus trabalhos mais recentes: Uma carta para tio Boonmee [2009], Mobile Men [filme-segmento que faz parte do longa Stories on Human Rights, 2008] e Pessoas Luminosas [também um filme-segmento do longa O Estado do Mundo, 2007], além de outros inéditos no país.

Mostra mundial: 23 filmes, 10 países | O programa faz um mix de diretores consagrados, novos cineastas e as tendências mais recentes do cinema. Entre os consagrados: Hong Sang-Soo [com Hahaha, prêmio do júri na mostra Un Certain Regard, em Cannes 2010); Clare Denis, com seu último filme White Materia; e Todd Solondz [os personagens de Happiness, 12 anos depois, em A Vida Durante a Guerra].

Foco também para o novo cinema indie americano: Mobília mínima, prêmio de Melhor Filme de Ficção no festival americano SXSW, dirigido Lena Dunham; Alguns dias são melhores que outros, de Matt McCormick, que participou dos festivais de SXSW e Seattle; e Amor e ódio, de Bryan Poyser, que estava na competitiva do Sundance deste ano. Destaque também para o cinema romeno de Terça-feira, depois do Natal [participante da seleção oficial da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes] e o documentário Nós não ligamos mesmo para música, sobre a música de vanguarda feita em Tóquio. O filme participou de vários festivais tais como SXSW, BAFICI, Cinéma du réel e Singapore.

“Godard” (2)

Critique

 “Godard”, d’Antoine de Baecque: Godard, phénix du cinéma

LE MONDE, 11.03.10

Jacques Mandelbaum

Cinéaste adulé et admiré, honni et controversé, Jean-Luc Godard est l’une des figures les plus étudiées et commentées de l’histoire du cinéma. Paradoxalement, ces kilomètres de littérature critique ont longtemps été dépourvus de biographie digne de ce nom, consacrant ainsi l’aversion que le cinéaste revendique pour le genre. Deux ouvrages en langue anglaise ont comblé ce manque : Godard, a Portrait of the Artist at Seventy, de Colin MacCabe (Bloomsbury, 2003), et Everything Is Cinema. The Working Life of Jean-Luc Godard, de Richard Brody (Metropolitan Books, 2008).

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Extrait

Notre musique déclenche une polémique, feutrée mais réelle, à propos des rapprochements établis par Godard entre la Shoah subie par les juifs et la “Nakba” dont sont victimes les Palestiniens. (…) Au moment de la guerre d’Irak et de l’omniprésence de la mémoire de la Shoah, il est certain que les propos et les images de Godard – dont le motif n’a pas varié en trente ans (“Les juifs font aux Arabes ce que les nazis ont fait aux juifs”) – dans un contexte qui, lui, a énormément évolué, ont valeur de provocation. (…) Godard est à la fois entêté, inflexible et fidèle à lui-même, car depuis le tournage de Jusqu’à la victoire, en 1969, la figure du juif n’a pas varié d’un pouce chez lui : symbole par excellence de la victime devenue bourreau, elle est le point aussi aveugle que central de la pensée godardienne.”


(“Godard”, p. 795-796)

C’est aujourd’hui au tour d’Antoine de Baecque, historien, critique de cinéma, auteur prolifique déjà signataire, avec Serge Toubiana, d’une monumentale biographie de François Truffaut, de se prêter à cet exercice non autorisé. La seule envergure de l’ouvrage (mille pages bien pesées, fruit de trois ans de recherches digérant la filmographie, ratissant les archives, écumant les témoins) suggère que ce travail a une ambition d’étape fondamentale dans la connaissance du cinéaste.

Bourgeoisie protestante

On ne trouve, de fait, nulle part ailleurs un tel luxe de détails, une telle floraison de sources, une telle attention portée au contexte socio-politique, aux conditions de production comme à la réception de l’oeuvre. A mille lieues d’une approche poétique ou d’une lecture orientée, l’auteur ne prétend pas pour autant introduire une révolution copernicienne dans le décryptage de l’oeuvre et du personnage. Ce pourrait être l’éventuel reproche adressé à cet ouvrage : mettre à nu les arcanes de la création sans en pénétrer – ni, a fortiori, en reconduire – le mystère. A cette tâche peut-être impossible, le livre substitue une démarche plus rigoureuse, éclairant un parcours dont l’inépuisable richesse suffit à l’intérêt qu’il procure. Car l’itinéraire de Godard, qui ferait perdre le nord à n’importe quelle boussole exégétique, n’est rien d’autre qu’une recherche constamment renouvelée de lui-même et de son art. Cela, le livre le montre parfaitement, de même que ce qui soutient cet idéal : un rapport au monde qui n’aura jamais cessé d’être conflictuel, établissant chaque stratégie d’alliance (amoureuse, technique, financière, artistique) sur les ruines de la précédente, dans une solitude de plus en plus accusée.

Cela commence tôt, dès sa rupture avec une famille de la grande bourgeoisie protestante. Elle est si profonde qu’on ne laissera pas Godard assister à l’enterrement de sa mère. Le cinéma, auquel il arrive tardivement, sera propice, durant un demi-siècle, à la cascade d’expériences qui font de Godard le phénix du cinéma. Héraut de la Nouvelle Vague et refondateur de la grammaire cinématographique avec A bout de souffle (1960). Dandy de droite avec Le Petit Soldat (1963). Esthète virtuose avec Le Mépris (1963). Génie poétique de la gauche adoubé par Aragon et personnification de “l’auteur” célébrée dans le monde entier avec Pierrot le fou (1965). Sympathisant maoïste avec La Chinoise (1967). Révolutionnaire clandestin, anonyme et iconoclaste avec le groupe Dziga Vertov (Vent d’est, 1970). Ressuscité en gloire au cinéma avec Sauve qui peut (la vie) (1980). Essayiste vidéaste avec Puissance de la parole (1988). Ermite mélancolique avec JLG/JLG, autoportrait de décembre (1995). Mémorialiste et chantre de la mort du cinéma avec les Histoire(s) du même nom (1998).

Humiliation récurrente

Cette énumération ne donne qu’une idée schématique de la métempsycose godardienne, chroniquée et documentée par un livre qui fait apparaître le cinéaste comme le plus grand inventeur de formes du cinéma français. Cette invention, comme le suggère sans faux-semblants Antoine de Baecque, est animée par un génie à double face, à la fois créateur et destructeur. Le bon génie, c’est la capacité du cinéaste à retourner n’importe quelle contrainte en sa faveur, son inventivité constante, sa générosité, sa soif d’absolu, son art de créer des correspondances poétiques et insoupçonnées, de témoigner intuitivement d’un état du monde comme la foudre éclaire l’obscurité.

Le mauvais génie, c’est le champ de ruines existentiel qui nourrit cette révolution permanente. L’humiliation récurrente de ses collaborateurs, le détournement des commandes qui confine parfois à la trahison, le moindre souci du mal qu’il peut faire autour de lui, mais aussi bien la propension au sabotage masochiste d’un homme qui ne s’est jamais aimé. La vie de Godard n’est qu’une suite ininterrompue de ruptures, non seulement sur le plan professionnel mais aussi sur le plan personnel. Elles sont cruelles, brutales, blessantes, que ce soit dans la sphère sentimentale (Anna Karina, Anne Wiazemsky) ou amicales (Antoine Bourseiller, Jean-Pierre Gorin, François Truffaut…). Brûlant ce qu’il aime comme ceux qui l’aiment, “Godard semble avoir pour vocation d’être malheureux, et de rendre ceux qui l’entourent aussi malheureux que lui, sinon davantage : c’est la condition même de son art”, écrit de Baecque.

De ce point de vue, les chapitres particulièrement fouillés qui sont consacrés à l’existence du groupe Dziga Vertov, de 1969 à 1973, période relativement méconnue de la vie et de l’oeuvre de Godard, sont passionnants. Cette plongée souterraine dans la remise en cause radicale du cinéma et de la société, menée dans une fraternité bientôt trahie avec Jean-Pierre Gorin, illustre sans doute le mieux la culture du refus et du désastre dont procède le cinéma de Godard. Mais elle témoigne aussi, par le maintien au goutte-à-goutte d’un humour ravageur, de ce qui sans doute lui permit d’en sortir. Pour preuve, ce projet, avorté parmi beaucoup d’autres, d’une chronique farcesque de Mai 68, dans laquelle Jerry Lewis, rencontré à cet effet, aurait interprété les rôles de deux Georges de l’époque : Pompidou, premier ministre, et Séguy, secrétaire général de la CGT.

Cet art du paradoxe se retrouve à travers l’une des plus constantes métaphores historico-politiques en vertu de laquelle Jean-Luc Godard situe sa propre marginalité cinématographique : l’articulation de la Shoah et de la cause palestinienne, établie à travers le prisme antisioniste. Dans les oeuvres comme dans les textes ou les interventions, ce fil extrêmement solide court de la préparation d’un film commandé par le Fatah de Yasser Arafat en 1969 (Jusqu’à la victoire, inachevé, qui se transformera en Ici et ailleurs en 1973) jusqu’au dernier opus en date, Notre musique (2004). De Baecque écrit là-dessus ni plus ni moins que ce qu’on peut s’autoriser à en dire. Si le débat n’était aussi sensible, on serait tenté d’ajouter que cette dialectique de la victime et du bourreau peut aussi s’appliquer à un Jean-Luc Godard qui se rêve tantôt juif, tantôt palestinien. Elle serait alors la damnation baudelairienne du dernier des cinéastes romantiques.


GODARD. Biographie d’Antoine de Baecque. Grasset, 944 p., 25 €.

Film Socialisme (2) / “Godard”

GODARD TEM BIOGRAFIA LANÇADA NA FRANÇA E EXIBE NOVO FILME ACELERADO NA INTERNET

Ele está de volta. Seis anos depois de seu último longa-metragem, “Nossa Música”, o genial Jean-Luc Godard, um dos criadores da Nouvelle Vague, aparece com força na mídia francesa.

Primeiro graças ao lançamento de sua primeira biografia escrita por um intelectual francês: “Godard”, de Antoine de Baecque – responsável também pela biografia mais respeitada de François Truffaut. É uma obra que disseca em detalhes a criação de todos os filmes do cineasta, além de vasculhar boa parte de suas amizades e relações amorosas. Tantos detalhes resultaram em um livro de 940 páginas (editora Grasset).

A biografia “Godard” vem preencher uma lacuna francesa. Para a vergonha do país natal do diretor, duas biografias do diretor já haviam sido publicadas nesta década, e as duas em inglês: “Godard, a Portrait of the Artist at Seventy”, de Colin MacCabe (Bloomsbury, 2003), et “Everything is Cinema – The Working Life of Jean-Luc Godard”, de Richard Brody (Metropolitan Books, 2008).

O segundo motivo de alegria para seus fãs é o filme Socialismo, que deve ter sua primeira exibição em maio no Festival de Cannes. Ao que tudo indica, o filme segue a linha do anterior e faz uma reflexão sobre a crise de valores e da falência das ideologias de esquerda neste início de século 21. Em um navio, viajam personagens tão diversos como a cantora Patti Smith, o filósofo francês Alain Badiou e o historiador palestino Elias Sanbar.

Bem a seu modo, Godard divulgou na internet um trailer em que todo o filme é exibido de forma acelerada, em pouco mais de dois minutos. O procedimento tem o estilo que sempre marcou a obra do diretor, mas não é original – em 2002, Brian de Palma fez o mesmo para divulgar seu filme Femme Fatale.

(Jornal da Mostra nº 714)

Trailer com legendas em inglês:

Solidariedade a Jafar Panahi

Filmes prestam homenagem a cineasta preso

Há mais de um mês, o cineasta Jafar Panahi está preso no Irã. Em solidariedade ao diretor, cinemas mundo afora vão exibir, na quinta (dia 15), algumas de suas produções. Em São Paulo, quatro longas têm sessão no Unibanco Arteplex [Frei Caneca], com entrada gratuita.
Por tocar em assuntos delicados no país, como o direito das mulheres, Panahi é alvo de censura e cerceamento. Em “Fora de Jogo”, uma garota enfrenta obstáculos para entrar num estádio de futebol. Premiado em Veneza, “O Círculo”, retrata mulheres que buscam a liberdade.  [Guia da Folha]

Programação:

O Espelho – 14h

Fora de Jogo – 16h30

Ouro Carmim – 20h

O Círculo – 21h40

Plínio de Arruda Sampaio (2)

Para quem quiser acompanhar a íntegra da entrevista que o Jorge postou há pouco (eu quis), ei-la:

Amor sem Escalas

Up in the Air. EUA, 2009 Direção: Jason Reitman. Com: George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick. 109min

Boa

Decidi ver esse filme após notar que ele vinha sendo comentado até em espaços não dedicados ao cinema. De fato, é uma dessas fitas que aspiram a ser radiografias de certos momentos históricos. No caso, centra-se a atenção num tipo de personagem que realmente traduz algo da nossa época. Trata-se de um sujeito que trabalha numa empresa de RH especializada em conceder pés na bunda a pessoas cujos (ex-)chefes optam por esconder suas cabeças quando se decidem a guilhotinar as dos outros.

George Clooney encarna – muito bem – esse sujeito, Ryan, personagem instigante que funde discurso profissional e filosofia de vida: as ideias que toma como norte para si mesmo emprega também como base de argumentação das palestras motivacionais que ministra.

Tais ensinamentos básicos consistem em considerar os vínculos materiais, os compromissos rígidos e inflexíveis, ou, no limite, mesmo a imobilidade representada pela fixação das pessoas a uma residência, como obstáculos à verdadeira liberdade a que todos têm direito. A idéia-chave é algo como (não vou lembrar da frase literal): “não se pode ir muito longe com a mochila cheia”. Em outras palavras, estamos diante de uma improvável mistura de pseudolibertarismo hippie com conformismo yuppie, uma adequação dos anseios de independência modernos ao mundo de incertezas e inseguranças típicas do turbocapitalismo. Ao menos no nível do discurso, o desprendimento material é condição sine qua non para a liberdade pretendida.

É claro que, sendo um filme de Hollywood, não poderia transcorrer o tempo todo ao sabor da ousadia: o desenvolvimento final da trama descamba para a pieguice e as soluções moralistas começam a se enfileirar, como se o antídoto natural para o desamparo existencial decorrente da escolha de uma vida desgarrada fosse o regresso aos laços comunitários tradicionais: casamento monogâmico, filhos, casinha com jardim bem cuidado.

Os créditos finais surgem ao som de uma música composta por um desempregado e especialmente oferecida à produção por ele. Anuncia-se que os chutados que aparecem às pencas na fita eram efetivamente pessoas recém-desempregadas. Se não me engano, os créditos informam ainda que quase todos esses contemplados com a oportunidade redentora da demissão já se haviam, àquela altura, reinserido no mercado de trabalho (teriam eles seguido o conselho de Ryan, aproveitando a chance para redirecionar soberana e gloriosamente suas vidas?).

À parte esses desagradáveis contratempos, o filme tem bastante a oferecer e deve ser visto.

Nova York, Eu te Amo

New York, I Love You. EUA/França, 2009. Direção: Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Joshua Marston, Mira Nair, Brett Ratner, Shekhar Kapur, Natalie Portman e Randall Balsmeyer (transições). 110min

Boa

Segundo projeto do produtor Emmanuel Benbihy, iniciado em 2006 com Paris, te Amo, e que deve se estender ainda a longas filmados em Xangai, Jerusalém e Rio de Janeiro. Discordo da avaliação geral feita por alguns dos senhores e pela crítica. É um filme que, se não traz inovações formais, ao menos vem com uma proposta de apresentação atípica nessa onda de filmes de episódios – os dez segmentos de “New York” se entrelaçam e transcorrem em linha narrativa contínua, sem separações estanques (um diretor foi escalado para cuidar apenas das transições). E o resultado final é bastante satisfatório, apresentando momentos que até beiram o sublime. É o caso, no que agora me ocorre, de pelo menos três dos episódios: o dirigido por Shekhar Kapur, em que uma ex-cantora retorna a um hotel de propriedade de um antigo fã e o filho dele, que se encarrega da recepção à senhora; o do diálogo entre um casal de idosos sobre a questão da passagem do tempo, filmado por Joshua Marston; e o de Fatih Akin, que dirige a história da obsessão de um pintor por uma mocinha de origem asiática.

Ainda que a obra tenha a ver com uma imagem particularmente associada à megalópole (“Nova York é a cidade das oportunidades”, “onde tudo é possível” etc.), os temas explorados remetem mais uma vez, a exemplo do que ocorre nessa onda de filmes sobre megalópoles, a questões de sentido universal, e que, portanto, poderiam se passar em qualquer cidade, ou pelo menos em qualquer cidade grande do mundo. No caso, o objeto comum abordado pelos episódios do filme são as relações afetivas em vários níveis – o fraternal, o conjugal, o sexual, o filial.

Curiosidade: Nova York, Eu te Amo possuía originalmente dois episódios adicionais, dirigidos, um, pela Scarlett Johansson, e o outro, pelo realizador russo Andrei Zvyagintsev (do espetacular O Retorno). Essa versão estendida chegou a ser exibida no Festival de Toronto em 2008, mas o produtor decidiu excluir aqueles dois segmentos das cópias lançadas nos cinemas.

Festival de Berlim 2010 – Premiação

O drama “Honey” de Semih Kaplanoglu foi o vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim 2010. O grande vencedor deste importante certame é uma surpresa porque ninguém esperava que esta produção sobre um menino de seis anos que deixa de falar quando o pai apicultor parte para longe em busca de trabalho conseguisse conquistar este galardão. Roman Polanski conquistou o Urso de Prata de Melhor Realizador por “The Ghost Writer”. “How I Ended This Summer” de Alexei Popogrebsky, um thriller sobre dois homens isolados numa estação meteorológica, também foi premiado com alguns Ursos de Prata para Melhor Contribuição Artística (Pavel Kostomarov ) e Melhor Actor para Grigory Dobrygin e Sergei Puskepalis. O romeno “If I Want to Whistle, I Whistle” de Florian Serban, uma produção dramática sobre um jovem prisioneiro que rapta uma assistente social para tentar evitar que a sua mãe ausente parta com o irmão mais novo que criou sozinho, arrebatou o Grande Prémio do Júri e o Prémio Alfred Bauer . O Urso de Prata de Melhor Actriz foi entregue a Shinobu Terajima pela sua participação em “Caterpillar”. “Apart Together”, um filme chinês sobre um triângulo amoroso entre três idosos, valeu a Wang Quan’an e Na Jin o galardão de Melhor Argumento. O júri internacional do Festival de Berlim foi presidido pelo realizador alemão Werner Herzog que foi acompanhado por Francesca Comencini, Nuruddin Farah, Cornelia Froboess, José Maria Morales, Yu Nan e Renée Zellweger. A cineasta Pernille Fischer é definitivamente uma das maiores promessas da actualidade porque depois do reconhecimento que obteve com os seus dois últimos trabalhos, “Dansen” (2008) e “En Soap” (2006), esta promissora cineasta dinamarquesa conseguiu conquistar o Prémio de Melhor Filme Para a Crítica Internacional do Festival de Berlim com “En Familie”, uma produção que relata a história de uma família de padeiros dinamarqueses que são fornecedores da realeza mas o seu patriarca, Richard (Jesper Christensen), sofre de um cancro terminal e tenta convencer a sua filha Ditte (Lene Maria Christensen) a assumir o negócio da família.

Urso de Ouro de Melhor Filme
“Honey” (Turquia/Alemanha), de Semih Kaplanoglu

Urso de Prata (Grande Prémio do Júri)
“If I Want to Whistle, I Whistle” (Roménia/Suécia), de Florin Serban

Melhor Realizador
Roman Polanski, por “The Ghost Writer” (França/Alemanha/Grã-Bretanha)

Melhor Actriz
Shinobu Terajima, por “Caterpillar” (Japão) de Koji Wakamatsu

Melhor Actor
Grigori Dobrigin e Sergei Puskepalis, por “How I Ended This Summer” (Rússia) de Alexei Popogrebski

Melhor Contribuição Artística
Pavel Kostomarov – Fotografia de “How I Ended This Summer”

Melhor Argumento
Wang Quan’an e Na Jin por “Apart Together” (China), de Wang Quan’an

Prémio Alfred Bauer – Novas Perspectivas Artísticas
“If I Want to Whistle, I Whistle”

Prémio da Crítica – FIPRESCI
“En Familie” (Dinamarca), de Pernille Fischer

Melhor Primeira Obra
“Sebbe” (Suécia), de Babak Najafi

Prémio Amnistia Internacional
“Waste Land” (Brasil / Reino Unido), de Fernando Meirelles e Lucy Walker

Prémio Panorama
“Waste Land” (Brasil / Reino Unido), de Fernando Meirelles e Lucy Walker

Filme chinês ganha Urso de Prata de melhor roteiro

Sáb, 20 Fev, 08h56
BERLIM (AFP) – O filme chinês “Tuan Yuan” (Apart together, “Separados, juntos” – numa tradução literal), de Wang Quan’an (China), do cineasta Wang Quan’an, ganhou neste sábado o Urso de Prata de melhor roteiro no 60º Festival de cinema de Berlim.
Filmado em Xangai, fala sobre um reencontro amoroso – 50 anos depois da fundação da China Popular (1949) no continente, e da república insular de Taiwan – de um ex-soldado do partido Kuomitang.
“Quando filmei “Tuan Yuan”, quis captar todo um século. O fenômeno das pessoas separadas acontece no mundo inteiro. Também em Berlim. Meu filme é dedicado à cidade de Berlim”, declarou Wang Quan’an ao receber a premiação.
O retorno do amante a Xangai – o ex-soldado Liu Yansheng, interpretado por um ator e cantor muito conhecido em Taiwan, Ling Feng – causará grandes transtornos à vida de Qiao Yu’e, encarnada pela atriz Lisa Lu, que já havia fundado uma família com um suboficial das tropas comunistas.
“O argumento é baseado numa história real, e o que me interessa é mostrar o cotidiano, as pessoas comuns. Os taiwaneses só foram autorizados a regressar à China continental em 1987. O ideal dos chineses é a reunificação, poder reunir-se com os familiares que partiram para Taiwan há 50 anos”, declarou Wang Quan’an, quem já ganhou um Urso de Ouro em 2007 com “O casamento de Tuya”.

Delícias turcas e frios árcticos vencem no Festival de Cinema de Berlim

Semih Kaplanoglu com o Urso de Ouro para o melhor filme

O filme turco Honey, o russo How I Ended This Summer? e o romeno If I Want to Whistle, I Whistle são os vencedores-surpresa

“Honey”, do turco Semih Kaplanoglu, foi o vencedor-surpresa do Festival de Berlim 2010. O júri internacional, presidido pelo realizador alemão Werner Herzog, atribuiu o Urso de Ouro da 60.ª edição do certame à história de um menino de 6 anos que deixa de falar quando o pai apicultor parte para longe em busca de trabalho.

Mas, tal como acontecera em 2009, foram dois outros filmes que dividiram entre si o grosso do palmarés.

“How I Ended This Summer”, thriller do russo Alexei Popogrebsky sobre dois homens isolados numa estação meteorológica no Árctico, valeu ao director de fotografia Pavel Kostomarov o Urso de Prata para a melhor contribuição artística e a Grigori Dobrigin e Sergei Puskepalis, ex aequo, o Urso de Prata para melhor actor.

E o drama do romeno Florian Serban “If I Want to Whistle, I Whistle”, sobre um jovem prisioneiro que rapta uma assistente social para tentar evitar que a sua mãe ausente parta com o irmão mais novo que criou sozinho, venceu o Grande Prémio do Júri e o prémio Alfred Bauer para filmes que “abrem uma nova perspectiva artística”.

Num palmarés que Herzog disse durante a cerimónia ter sido relativamente fácil de decidir, Roman Polanski foi considerado melhor realizador por “The Ghost Writer”. O prémio foi recebido na sua ausência pelos produtores Robert Benmussa e Alain Sarde, que telefonaram ao cineasta polaco para o informar do galardão, lamentando que não pudesse estar ali para o receber em pessoa. Ao que Polanski respondera, segundo Sarde, que “a última vez que fui a um festival de cinema fui preso”, numa referência bem-humorada às circunstâncias da sua detenção na Suíça.

O Urso de Prata de melhor actriz coube à japonesa Shinobu Terajima, pelo seu papel de esposa sofredora de um soldado mutilado no filme de Koji Wakamatsu “Caterpillar”. E o galardão de melhor argumento foi entregue ao realizador chinês Wang Quan’an e ao seu colaborador Na Jin por “Apart Together”, história de um triângulo amoroso entre três idosos de Xangai.

O palmarés foi surpreendente na medida em que acabou por agradar maioritariamente a “gregos e troianos”, ao mesmo tempo que ignorava alguns dos melhores filmes apresentados na competição e continua a tradição recente de Berlim de premiar cinematografias pequenas.

Embora não fosse um candidato forte, “Honey”, terceiro tomo de uma trilogia sobre a infância e adolescência de um jovem poeta turco (completada por Egg e Milk, que Semih Kaplanoglu dirigiu em 2007 e 2008), era o favorito de parte da crítica alemã, enquanto “How I Ended This Summer” reuniu inexplicavelmente o consenso de muita crítica internacional. Não faltou quem apontasse (correctamente) que o filme de Alexei Popogrebski, rodado numa verdadeira estação meteorológica no Árctico com uma equipa reduzida, ia ao encontro de muitas das características do cinema de Herzog, o que justificaria a sua presença no palmarés.

Esperava-se também um gesto do júri em direcção a Polanski, em grande parte devido ao capital de simpatia da comunidade artística para com o realizador polaco face à complexa situação judicial em que se encontra.

A maior surpresa terá sido o Urso de Prata para “If I Want to Whistle, I Whistle”. A competição de Berlim havia até agora “passado ao lado” da nova vaga do cinema romeno, propulsionada por filmes como “4 Semanas, 3 Mesas e 2 Dias” ou “A Morte” do Sr. Lazarescu, mas a primeira obra de Florin Serban fora recebida sem grande entusiasmo.

A cerimónia decorreu, como sempre, no Berlinale Palast perante uma audiência de 1600 convidados que assistiram em seguida a “About Her Brother”, do veterano japonês Yoji Yamada, escolhido como encerramento oficial do 60.º aniversário do festival. Edição que termina esta noite e, pelo meio das múltiplas comemorações da ocasião (como a projecção ao ar livre de “Metropoli”s de Fritz Lang na Porta de Brandenburgo, com dois mil espectadores que não arredaram pé apesar das temperaturas negativas), se tornou na mais concorrida de sempre, com mais de 300 mil espectadores contabilizados.

Jorge Mourinha, em Berlim (PÚBLICO)