menino

Parece mesmo feitiço. Ele, que sequer é dado a gentilezas – dessas, de parecer ser -, atrai para si bem querência tamanha, que mal nos damos conta de que vivemos a lhe antecipar vontades e gostos.

Cresceu correndo mundo com os pés descalços, em casas com chão de terra batida, levando comida pro pai que trabalhava na lavoura e ele mesmo tendo que trabalhar na roça. A aridez desse mundo, entretanto, nunca coube em suas histórias. Ele não faz caso das mãos calejadas, do dedo que perdeu em uma máquina, não trata da falta. Suas histórias, ao contrário, são repletas de.

Sinto o melado na boca, tanto que até arrepia, quando ele conta, com gosto, como faziam limonada e adoçavam escondido com o açúcar guardado a sete chaves pela mãe. O irmão menor ficava de tocaia, no quintal, com a incumbência de dar o sinal tão logo avistasse a mãe voltando da venda. Lambuzavam-se e a dor de barriga era certa.

O cigarro feito com palha e fumo, tão proibido quanto o açúcar, era até fácil de conseguir. O duro era acendê-lo. Tinham que esperar o pai distrair para que um deles fosse até o fogão à lenha, pegasse uma brasa acesa e atirasse pela janela para o outro que já esperava com o cigarro pronto.

Certa feita, certos de que estava na hora do menor aprender a nadar, resolveram jogá-lo no rio que cortava a fazenda. O Luisinho engoliu muita água, mas não teve opção – saiu nadando, pra passar muitos dos anos seguintes sem sequer chegar perto das margens de qualquer rio. Depois disso, mal tolerava bacias com água.

A escola ficava a oito quilômetros da casa. Ele ia e voltava à pé, com o amigo Zé Pernambuco. Quando dava sorte de os bichos estarem ali, à vontade, sem vigia, pegava umas galinhas do vizinho e vendia no caminho. Nesse dia não chegava na escola. Ia pro vilarejo gastar tudo o que arrecadara, em doces.

Andar sem sapatos não o incomodava. Eram maioria os descalços na escola e ele ainda se diverte contando como riam do garoto que usava sapatos.

O Zé Pernambuco, apesar de todo o esforço da professora, nunca aprendeu a ler. Com muito custo conseguiu, depois de alguns anos, assinar o nome, mas nunca passou disso. Ele, por sua vez, lia muito. Lia o que lhe caísse às mãos. Não cursou mais do que a quarta série, mas é daqueles que veio ao mundo para aprender. Quando instalaram o rádio na fazenda, passou a ocupar as noites ouvindo noticiário de rádios estrangeiras e ali começou a definir sua vontade política.

Quando a fazenda ficou pequena, veio o circo e tudo aquilo pareceu tão incrível que ele não vacilou em partir. Voltou tempos depois e seguiu, garoto, vida afora.

Ele não chegou a pedir que fossemos todos à praia. Nada disse. Fez parecer ideia nossa. Justo nós, tão cansados e velhos de tão cansados. Saímos da sua casa já tão tarde, não parecia adequado. De repente me distraio da direção e olho pra ele, ali sentadinho, no banco do passageiro (ele que sempre nos levou a todo e qualquer lugar, que preferia comprar brinquedos a  pagar contas, que usava o dinheiro da gasolina pra comprar pizza e ficava sem ter como ir pro trabalho no dia seguinte). Os olhos azuis brilhando de satisfação e olhando longe, tão longe que eu não consegui alcançar. O vidro aberto e aquele vento todo bagunçando o pouco cabelo que lhe resta. Ele segura a perna que dói com uma mão e com a outra leva à boca os doces todos que comprou quando paramos no posto. O menino ainda está ali, com olhos que sabem rir.

Eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobejo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira— só meu companheiro amigo desconhecido. Guimarães Rosa

 

check list

Saí da Pompéia, sábado de manhã (dia claro, sol quente), passei no Taboão pra pegar meus pais e fomos todos levar meu carro pra trocar as pastilhas de freio em uma oficina em Cubatão. Não adiantou dizer que era algo simples, que podia ser feito em qualquer lugar por aqui, que não compensava. Meu pai já tinha ligado pro amigo da oficina e combinado. Eu ainda tentei dizer que tinha consulta com um oftalmologista, mas ele disse que era besteira, que eu não tenho nada nos olhos e lá fomos. É a cara dele por sentença na vida da gente.

Oficina lotada e ele ali, meio tortinho, zanzando por entre os carros e peças e mecânicos. Faz questão de por a mão em tudo, de conversar, dar palpite. Dali a pouco nos chama pra comer em um boteco ali perto. Não entendo porque quer andar tão rápido – será que acha que abreviando o tempo de percurso engana a dor na perna? Feijoada. Não conheço o lugar e não tenho passado muito bem nos últimos dias, então vou com calma, como pouco e devagar enquanto ele, que já levou uma baita bronca da nutricionista do hospital (“nada de comer na rua…”), come três pratos em tempo recorde e sai dali feliz – isso sim é feijoada, por isso o bar (único em quilômetros) está cheio!

Outro dia fui trabalhar com ele. Passamos por duas oficinas na zona norte e de lá fomos pra Cubatão. Fiquei tão exausta quanto ele, embora eu tenha o dobro de pulmões funcionando.

– Fia, melhor a gente conversar com o médico, pedir pra ele fazer outra biópsia, porque se eu tivesse mesmo câncer no pulmão, estaria fodido.

Rimos um tanto. A primeira vez que falei com ele sobre seu diagnóstico (nunca sobre o prognóstico) foi muito difícil. Agora ainda dói um pouquinho quando o vejo tentando contornar, dar as costas , mas entendo que ele usa as armas que tem e enquanto vê alternativas, vamos vivendo todos.

Desde que soubemos algumas pessoas, mais ou menos próximas, se foram. Umas doentes, outras sãs, jovens. Nenhuma com os dias tão contados quanto os dele. Uma sensação de que tudo, em toda parte, pode estar por um fio.

Outro dia escrevi como se o fio estivesse já rompido. Não está. É só um fio, com a fragilidade que lhe é inerente, mas está ali ainda. Depois daquele tempo de tanta tristeza, em que eu estava certa de que ele morreria sem que nada mais lhe apetecesse, sem risadas, sem prazeres, meu pai não só voltou a comer, como já cozinhou pra família toda (inclusive o macarrão e a polenta). Engordou. Tem dirigido por aí atrás de clientes e fornecedores. Pegou mais trabalho. Foi cuidar da vida da minha irmã e me ajudou a deixar meu carro em ordem. Riu muito. Acostumamo-nos a vê-lo procurar um lugar  e se sentar, ofegante, depois de alguns passos. Ele é assim agora, cansa logo, respira mal e fica pouco tempo em pé, mas também é o outro que sabe como fazer bem um trabalho, que conta histórias , que ouve histórias, que dirige com a carteira suspensa, que não quer tomar remédios. Reli o outro texto e é como se esses dois meses fossem uma resposta, parece até um check list. Estou mais tranqüila, consigo até dar uma espiadinha na minha própria vida, mas agora que deu pra voltar a respirar, quero mais tempo disso tudo.

carta a meu pai

Meu pai querido, quem diria, essa vidinha nos pegou de jeito, ali na curva, como dizem. Você e eu nos parecemos muito, inclusive na falta de jeito pra lidar  com a passagem do tempo, suas marcas, limitações e agora,  tudo o que eu queria – e ouso crer que você também -, era mais tempo, mais tempo com você. Eu sinto tanto a sua falta. A luta por você é grande – hospital, médicos, enfermeiros, a tristeza, a tua tristeza nos consome. Tua dor que não conseguimos eliminar e o medo que temos de que ela piore e você sofra ainda mais. O teu medo – vejo teu medo pai, sei que está assustado. Você tem medo de morrer, de acabar, de não nos ter mais. Tem medo do nosso sofrimento. Tem medo de não conseguirmos nos virar sem você. Tem medo de que te esqueçamos. Tem medo de a enfermeira não encontrar tua veia e te furar e furar e furar. Tem medo de não conseguir respirar, de não conseguir andar mais, de nunca mais sentir gosto de algo. Eu quero muito que dê tempo de você comer algo bem gostoso, cheiroso, algo que te satisfaça, que tenha o gosto de antes. Quero o antes, meu pai. Além de toda a dor por você, há essa dor enorme de te ver indo, de te perder aos poucos. Que saudade da tua risada solta, de quando você jogava a cabeça pra trás, ria e batia a mão na mesa – “Ah, vá!”. Seus braços estão tão magrinhos, você está tão pequenino, abatido, fraco, tão cheio de ossos. Parece um prisioneiro num corpo que não condiz com a tua vontade, porque essa grita, se agarra a toda e qualquer esperança. Você não ouve o que os médicos dizem, o que os exames mostram. Você quer sarar. Você tenta levantar, ficar sentado, tomar sol. Tenta prestar atenção na conversa. Tenta sorrir. Você sorri, mas eu sei que é por nós. Risada mesmo parece coisa do passado. No passado também ficaram a macarronada, a costela, a polenta, a sopa de mandioca, que você fazia e comia com tanto gosto. Eu queria que você desse uma volta no meu carro pra dizer porque ele faz barulho quando eu freio. Queria saber se tenho que colocar óleo ou se tenho que fazer o tal rodízio de pneus. Queria poder dizer que você não deveria ter ido até Mongaguá levar a Andréa pela milésima vez. Você me ensinou a andar de bicicleta, a dirigir, a acreditar na esquerda, a não acreditar em Deus, a ajudar sempre que possível, a não dar valor ao dinheiro e um tanto mais de coisas, mas não me deu nem dica de como lidar com uma perda dessas. É claro que não seria pra sempre, pai, ninguém é eterno, eu sei, mas eu não quero, não desse jeito. Te vi no carro, sentadinho no banco do motorista. Ligou, engatou a primeira, mexeu o carro um tiquinho, deu ré, voltou. Ficou ali a tarde toda, uma tarde linda de sol. Lembra pai, de nós todos pulando sobre você na cama, escancarando a janela e pedindo que nos levasse pra praia?  Você ria, fazia suspense e lá íamos nós pra Peruíbe – saíamos de casa quase meio dia, pra voltarmos no mesmo dia, à tardinha. E brincávamos tanto. Você ficava conosco na água o tempo todo, gostava tanto de nadar. Você foi me buscar no hospital quando a Gabi nasceu e foi de novo quando o Yan chegou. Também estava lá quando a Gabi ficou internada e quando o Yan caiu da escada. Esse você de agora só consegue estar perto se eu te procurar. Não espero mais que você se materialize na minha frente. Você nesses novos tempos assiste novela, assiste até aqueles programas sensacionalistas sobre crimes. Você pediu pra mãe rezar, está tentando um credo qualquer né, pai. Tomara que você consiga, que encontre um que te sirva (e aí fala o meu egoísmo que não suporta a impotência diante do teu desconforto). Sabe, às vezes eu dou uma escapadinha e peço por um milagre e, por alguns instantes, finjo que pode dar certo e quase acredito.

“que seja doce”

Entrei e dei de cara com ele deitado no sofá, sem cobertor. Corado, acordado e disposto a falar.

– Tudo bem, pai?

– Tudo bem.

– Alguma novidade?

– Novidade, só uma – sua mãe e a Helena.

Sentei-me esperando o relato de alguma briga entre as duas, ou o desfile de malfeitos, mas não, ele me contou que fez sozinho todo o almoço, que caprichou muito, mas comeu e vomitou em seguida.

– Você fez o almoço, pai? Que coisa boa! Passou mal? Faz mal não, vamos arrumar algo pra você comer agora.

Pareceu que ele me esperava pra contar. Ele me espera o tempo todo. Espera pelo David também. A Andrea e a Helena já estão por lá. Ele nos quer por perto, todos, aliás, como sempre. A diferença está na ansiedade de agora, na urgência.

Todos ali, junto dele. Junto mesmo, pertinho, quase ocupando o mesmo espaço. Moramos parte da vida em casas bem pequeninas – um cômodo, dois, três. Essa é grande, dois quartos, um ocupado pela Helena, Andrea e prole e o outro pelos meus pais. Qualquer que fosse o tamanho do lugar, estaríamos  – crianças e incontáveis e variados bichos de estimação – sempre no cômodo, no canto em que ele estivesse. Melhor ainda se o canto em questão fosse a cozinha. Ele sempre gostou de ficar agachado, conversando, com o copo de café na mão. Sempre copo, não gosta e nem nunca fomos de ter xícaras naquela casa.

Não lhe dávamos tempo de chegar, aprumar-se. A roupa toda suja de graxa só seria trocada depois da janta (e ele chegava, invariavelmente, faminto) e de lhe colocarmos a par de  todo o mundo que cabia nos nossos dias. Ele ouvia ou fazia que, sempre. Hoje não creio mais ser possível ouvir sempre e nem vejo mal nisso. Comentava, ria. Ria muito, ria alto, com gosto. Reclamava também, do barulho, das brigas constantes entre irmãos. Nunca bateu, embora contasse sempre sobre os diferentes modos das crianças da época dele e dos castigos aplicados. Ele xingava muito, aos berros. Atirava coisas – a torneira que alagou tudo enquanto tentava consertá-la, o vídeo cassete que mastigou a fita, a bicicleta na qual ele tropeçou. Ríamos, nunca tivemos qualquer receio dele. Não havia medo, mas um pedido dele valia mais do que as muitas chineladas ou ameaças da minha mãe.

Descobri que não foi ele que fez o almoço. Ele esteve ali no sofá, deitadinho, por toda a manhã. Talvez tenha sonhado, talvez quisesse ter feito de novo aquele almoço pra quem chegasse. Ele tem sonhado que está trabalhando, dirigindo, fumando. E conta esses sonhos todos bastante animado e de repente engata um plano de ir amanhã até Cubatão trocar as mangueiras de uma máquina (uma empilhadeira?). Daí fecha o semblante e diz que não vai, que não vai mais a lugar algum.

– Eu não posso viver assim, fia. Se eu não posso nem subir mais em uma máquina, não sirvo pra nada.

Outro dia percebi que ele me esperava pra trocar a lâmpada do banheiro. Não pediu. Revirava gavetas onde obviamente não haveria lâmpada alguma, até que eu perguntei o que, afinal,  ele procurava.

– A lâmpada do banheiro queimou.

– Pronto, peguei a da varanda e vou trocar.

– Você não consegue, não sabe.

Troquei. Passei a vida contando com ele  pra trocar as lâmpadas, chuveiro, pneus, colocar cortinas, montar móveis, brinquedos, bicicleta, isso até outro dia, mas essa eu troquei. Talvez as coisas não devessem nunca deixar de ser.

– Pai, você já poderia mesmo se aposentar e não seria o único aposentado por aí. Pode descansar um pouco, fazer outras coisas.

– Descansar de que?  Ah, fia, eu preciso trabalhar. Tem tanta coisa que eu poderia fazer. E eu não quero ninguém me levando pra lugar nenhum, eu sempre me virei, nunca dependi de ninguém…

– …

Fia, a gente podia pegar aquela caminhonete na Barra Funda e levar pra Guarulhos amanhã, hein! É bom eu ir até lá pra ver se está tudo certo.

– Guarulhos é perto da minha casa. Não é o caso de você verificar se está tudo ok por telefone mesmo?

– Não. Melhor você passar aqui cedo pra irmos juntos.

– Perfeito, pai. Melhor você ir até lá dar uma olhada mesmo. Se você estiver bem, né. De qualquer forma, passo aqui e a gente decide, tá.

E eu continuo ali, olhando pra ele. Ele sorri e dorme mais um pouquinho. E acorda e olha e me vê olhando e sorri. Só quando entro no carro minha dor pode estourar. E estoura, arrebenta, arrasa.

nos poços – caio fernando abreu

Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do  poço do poço você vai descobrir quê.

faz de conta

Um tanto de coisas, de uma vida toda, foi embora. Na verdade não foi ainda, é estranho, as coisas aqui, ali, em toda parte, numa coreografia desordenada, deixando de existir, sem pressa. Era concreto, estava ali, mas não era de verdade. Adoro essa expressão – de verdade. Quando criança as coisas podiam ser de verdade ou de mentira e a perspectiva, a capacidade de relativizar, viriam apenas com os anos. Agora os anos todos não dão conta de relativizar, de tornar de alguma forma verdadeiras essas coisas todas a que me referi no início e que hoje estão indo embora. Se não verdadeiras, foram reais, chegaram mesmo a existir? Afinal, quem fui eu nessa história toda que nem era a minha? Desculpa, eu não percebi, não enxerguei nas entrelinhas, acostumada que estou a dizer sem meandros, beirando a grosseria até. É curioso pra mim a perplexidade que a minha perplexidade causa. Pasmem, eu não havia entendido mesmo. Acreditei uma, duas, dez, todas as vezes. Não cabia dúvida nessa minha fé cega e burra. Cada história recontada deixa um buraco naquela história que não é mais. Versões e versões e versões, em prosa e verso e gestos e pedidos de perdão já sem cor. Tivesse enxergado as contradições, tropeços, incoerências desse enredo torto, teria uma história pra contar. Não, essa eu não conto mais, não agora, não ainda. Queria outra e outra não há. Não acredito mais e essa é a maior perda. Depois de um roubo passei a fechar os vidros do carro e dirigir ficou muito pior. Ter a casa invadida me apresentou cadeados, trincos e trancas e um mundo todo através de insuficientes frestas. Não consigo mais crer deliberadamente e isso não adveio de uma escolha. Mas não faz mal, a janela está aberta, quase escancarada, agora.