check list

Saí da Pompéia, sábado de manhã (dia claro, sol quente), passei no Taboão pra pegar meus pais e fomos todos levar meu carro pra trocar as pastilhas de freio em uma oficina em Cubatão. Não adiantou dizer que era algo simples, que podia ser feito em qualquer lugar por aqui, que não compensava. Meu pai já tinha ligado pro amigo da oficina e combinado. Eu ainda tentei dizer que tinha consulta com um oftalmologista, mas ele disse que era besteira, que eu não tenho nada nos olhos e lá fomos. É a cara dele por sentença na vida da gente.

Oficina lotada e ele ali, meio tortinho, zanzando por entre os carros e peças e mecânicos. Faz questão de por a mão em tudo, de conversar, dar palpite. Dali a pouco nos chama pra comer em um boteco ali perto. Não entendo porque quer andar tão rápido – será que acha que abreviando o tempo de percurso engana a dor na perna? Feijoada. Não conheço o lugar e não tenho passado muito bem nos últimos dias, então vou com calma, como pouco e devagar enquanto ele, que já levou uma baita bronca da nutricionista do hospital (“nada de comer na rua…”), come três pratos em tempo recorde e sai dali feliz – isso sim é feijoada, por isso o bar (único em quilômetros) está cheio!

Outro dia fui trabalhar com ele. Passamos por duas oficinas na zona norte e de lá fomos pra Cubatão. Fiquei tão exausta quanto ele, embora eu tenha o dobro de pulmões funcionando.

– Fia, melhor a gente conversar com o médico, pedir pra ele fazer outra biópsia, porque se eu tivesse mesmo câncer no pulmão, estaria fodido.

Rimos um tanto. A primeira vez que falei com ele sobre seu diagnóstico (nunca sobre o prognóstico) foi muito difícil. Agora ainda dói um pouquinho quando o vejo tentando contornar, dar as costas , mas entendo que ele usa as armas que tem e enquanto vê alternativas, vamos vivendo todos.

Desde que soubemos algumas pessoas, mais ou menos próximas, se foram. Umas doentes, outras sãs, jovens. Nenhuma com os dias tão contados quanto os dele. Uma sensação de que tudo, em toda parte, pode estar por um fio.

Outro dia escrevi como se o fio estivesse já rompido. Não está. É só um fio, com a fragilidade que lhe é inerente, mas está ali ainda. Depois daquele tempo de tanta tristeza, em que eu estava certa de que ele morreria sem que nada mais lhe apetecesse, sem risadas, sem prazeres, meu pai não só voltou a comer, como já cozinhou pra família toda (inclusive o macarrão e a polenta). Engordou. Tem dirigido por aí atrás de clientes e fornecedores. Pegou mais trabalho. Foi cuidar da vida da minha irmã e me ajudou a deixar meu carro em ordem. Riu muito. Acostumamo-nos a vê-lo procurar um lugar  e se sentar, ofegante, depois de alguns passos. Ele é assim agora, cansa logo, respira mal e fica pouco tempo em pé, mas também é o outro que sabe como fazer bem um trabalho, que conta histórias , que ouve histórias, que dirige com a carteira suspensa, que não quer tomar remédios. Reli o outro texto e é como se esses dois meses fossem uma resposta, parece até um check list. Estou mais tranqüila, consigo até dar uma espiadinha na minha própria vida, mas agora que deu pra voltar a respirar, quero mais tempo disso tudo.

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