“que seja doce”

Entrei e dei de cara com ele deitado no sofá, sem cobertor. Corado, acordado e disposto a falar.

– Tudo bem, pai?

– Tudo bem.

– Alguma novidade?

– Novidade, só uma – sua mãe e a Helena.

Sentei-me esperando o relato de alguma briga entre as duas, ou o desfile de malfeitos, mas não, ele me contou que fez sozinho todo o almoço, que caprichou muito, mas comeu e vomitou em seguida.

– Você fez o almoço, pai? Que coisa boa! Passou mal? Faz mal não, vamos arrumar algo pra você comer agora.

Pareceu que ele me esperava pra contar. Ele me espera o tempo todo. Espera pelo David também. A Andrea e a Helena já estão por lá. Ele nos quer por perto, todos, aliás, como sempre. A diferença está na ansiedade de agora, na urgência.

Todos ali, junto dele. Junto mesmo, pertinho, quase ocupando o mesmo espaço. Moramos parte da vida em casas bem pequeninas – um cômodo, dois, três. Essa é grande, dois quartos, um ocupado pela Helena, Andrea e prole e o outro pelos meus pais. Qualquer que fosse o tamanho do lugar, estaríamos  – crianças e incontáveis e variados bichos de estimação – sempre no cômodo, no canto em que ele estivesse. Melhor ainda se o canto em questão fosse a cozinha. Ele sempre gostou de ficar agachado, conversando, com o copo de café na mão. Sempre copo, não gosta e nem nunca fomos de ter xícaras naquela casa.

Não lhe dávamos tempo de chegar, aprumar-se. A roupa toda suja de graxa só seria trocada depois da janta (e ele chegava, invariavelmente, faminto) e de lhe colocarmos a par de  todo o mundo que cabia nos nossos dias. Ele ouvia ou fazia que, sempre. Hoje não creio mais ser possível ouvir sempre e nem vejo mal nisso. Comentava, ria. Ria muito, ria alto, com gosto. Reclamava também, do barulho, das brigas constantes entre irmãos. Nunca bateu, embora contasse sempre sobre os diferentes modos das crianças da época dele e dos castigos aplicados. Ele xingava muito, aos berros. Atirava coisas – a torneira que alagou tudo enquanto tentava consertá-la, o vídeo cassete que mastigou a fita, a bicicleta na qual ele tropeçou. Ríamos, nunca tivemos qualquer receio dele. Não havia medo, mas um pedido dele valia mais do que as muitas chineladas ou ameaças da minha mãe.

Descobri que não foi ele que fez o almoço. Ele esteve ali no sofá, deitadinho, por toda a manhã. Talvez tenha sonhado, talvez quisesse ter feito de novo aquele almoço pra quem chegasse. Ele tem sonhado que está trabalhando, dirigindo, fumando. E conta esses sonhos todos bastante animado e de repente engata um plano de ir amanhã até Cubatão trocar as mangueiras de uma máquina (uma empilhadeira?). Daí fecha o semblante e diz que não vai, que não vai mais a lugar algum.

– Eu não posso viver assim, fia. Se eu não posso nem subir mais em uma máquina, não sirvo pra nada.

Outro dia percebi que ele me esperava pra trocar a lâmpada do banheiro. Não pediu. Revirava gavetas onde obviamente não haveria lâmpada alguma, até que eu perguntei o que, afinal,  ele procurava.

– A lâmpada do banheiro queimou.

– Pronto, peguei a da varanda e vou trocar.

– Você não consegue, não sabe.

Troquei. Passei a vida contando com ele  pra trocar as lâmpadas, chuveiro, pneus, colocar cortinas, montar móveis, brinquedos, bicicleta, isso até outro dia, mas essa eu troquei. Talvez as coisas não devessem nunca deixar de ser.

– Pai, você já poderia mesmo se aposentar e não seria o único aposentado por aí. Pode descansar um pouco, fazer outras coisas.

– Descansar de que?  Ah, fia, eu preciso trabalhar. Tem tanta coisa que eu poderia fazer. E eu não quero ninguém me levando pra lugar nenhum, eu sempre me virei, nunca dependi de ninguém…

– …

Fia, a gente podia pegar aquela caminhonete na Barra Funda e levar pra Guarulhos amanhã, hein! É bom eu ir até lá pra ver se está tudo certo.

– Guarulhos é perto da minha casa. Não é o caso de você verificar se está tudo ok por telefone mesmo?

– Não. Melhor você passar aqui cedo pra irmos juntos.

– Perfeito, pai. Melhor você ir até lá dar uma olhada mesmo. Se você estiver bem, né. De qualquer forma, passo aqui e a gente decide, tá.

E eu continuo ali, olhando pra ele. Ele sorri e dorme mais um pouquinho. E acorda e olha e me vê olhando e sorri. Só quando entro no carro minha dor pode estourar. E estoura, arrebenta, arrasa.

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