Professora Monique

Claudinei apaixonou-se pelas palavras precocemente. Aos quatro anos, recitava versos para sua prima Ritinha. Para a avó, declamava com vigor e esperava solene, à entrada da cozinha, caprichados doces caseiros como forma de agradecimento. Aos cinco, era leitor notívago de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Debaixo do travesseiro, encontravam-se costumeiramente, a lanterna, presente do avô André, e um livro. Quando completou sete anos, ganhou do pai, um livro de contos do Machado. Terminada a leitura do exemplar, disse, “Esse Machado tira onda com a cara dos outros, gostei!“ O pai soltou uma gargalhada admirada. No último natal, ganhou uma coletânea de poesias do Manoel de Barros. Entendeu, enfim, como acontece às palavras, de desaguarem da cabeça de uma pessoa. Na escola, está no sexto ano. Jandira, sua professora de História, encantou-se com suas leituras dramatizadas das Cruzadas. Ele recria batalhas, inventa cavaleiros apaixonados, perdidos entre a Europa e a Ásia. Professora Jandira recomendou-lhe que procurasse a professora Monique, de Língua Portuguesa, do sétimo e oitavo anos. A tal professora coordena uma oficina de criação literária e orienta um grupo de alunos de todos os anos do fundamental II. O menino não pensou muito. Deixou um bilhete pendurado no mural de recados da secretaria. A professora respondeu rápido, durante um intervalo; pregou outro papel ao lado do bilhete do menino, pedindo-lhe que comparecesse, após as aulas do dia seguinte, à sala onde ocorreria a dita oficina. E lá foi o menino, sonhando em compartilhar ideias e enriquecer histórias. Ao chegar, avistou a professora Monique e um grupo de estudantes entretidos com suas tarefas. De cara amarrada, perguntou quem era o garoto que prontamente disse seu nome. “Ah, tá”, disse a professora Monique, “não me lembro de o que você queria comigo?” completou. Claudinei, confuso, explicou, novamente, tudo o que escrevera no bilhete. “Tá bom, garoto. Vá à secretaria, preencha uma ficha e aguarde meu contato”. O menino saiu pensativo e desconfiado: “Eu apenas queria conversar, falar do meu prazer em ler, contar algumas histórias. A professora Monique nem me escutou direito”. Ligou para sua mãe e lhe disse que voltaria para casa a pé. Para consertar seus pensamentos. Da professora Monique ficou a lição. Onde há panela, há fogo que sempre afugenta.

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