gabi

Gosto de brincadeiras com palavras, figuras de linguagem, frases ambíguas. Não assisti o filme, mas fiquei muito tempo pensando no título Cada um é para o que nasce. É para o que nasce. Nasce para ser. Continuo sem saber direito a que vim, se é que virei a estar certa disso antes disso ter fim. Mês passado atingi a maioridade no papel de mãe – mãe que pariu, porque mãe que cuida já sou de data mais remota ainda, de pais e irmãos –, 18 anos. Senti-me um pouquinho mais leve, como se soltasse algo. Espera-se algo dos dezoito anos, escolha de carreira, faculdade, bebida, cigarros, baladas sem o RG falso, dirigir. Aos dezoito de mãe certifico-me, agora com o aval dessa nova adulta que surgiu por aqui, que escolhi a faculdade errada, que não tenho carreira e nem sei por que caminhos dirigir. Não sei voltar também. Escolher agora é difícil, é lento, como empurrar algo ladeira acima sem qualquer ferramenta para burlar a correnteza, é ter que dar conta do atrito. Falta a disposição, a crença dos dezoito.
Eu lutava contra o sono em uma aula de História do Brasil, à tarde, com a professora Esmeralda, quando o Jeferson me chamou à porta. Joguei tudo na bolsa e saí. Positivo. Fiquei brava, perplexa, confusa. Não cabia na minha rotina de trabalho e duas faculdades. Uma noite bastou para aceitar a idéia, embora a luta ea dúvida tenham se mostrado presentes durante boa parte da gravidez.
Encarar ônibus lotado com uma barriga gigante, curso chato, alunos do fundamental II, não foi nada perto do que seria ter de lidar com um bebê. O bebê veio sem manual de instruções e não dava para desligá-lo. Já chegou com imposições – queria mamar, ser trocado, ninado e, no pouquíssimo tempo em que dormia, eu tinha que aproveitar para cuidar da sua roupa, da casa e do resto. Chorava , babava, vomitava. Eu passei a cochilar, a comer sopinha com o bebê, a assistir Castelo Rátimbum, Doug e as vinhetas da Ritinha. Passei a curtir aquela coisinha babona, a babar com os seus pequenos e constantes avanços. Estava ali, num sábado de sol, quando ela soltou a mão do berço e veio andando em minha direção. Primeiro parque de diversões, teatro, cinema, show. Lia histórias todas as noites, para ela e para a boneca “Natália”. Fui a quase todas as reuniões da escola – uma escola muito diferente das que frequentei na minha infância – ansiosa, como se ali pudesse também aprender um pouquinho mais do ofício de mãe. A primeira palavra que ela leu foi batata, quando fazíamos compras em um sacolão. Aos poucos a leitura tornou-se um hábito solitário e eu mal sabia dos livros que passavam por suas mãos. Andando por aí ela me disse que seria escritora. Cabeleireira, veterinária, professora, economista e jornalista também já foram profissões listadas. Perdi o medo de dirigir com ela e o irmão ao meu lado, por aí, um tanto por eles. Houve um período em que seu sonho era “morar em uma casa sem uma mãe alérgica para poder usar muito perfume”, roupas extravagantes como a tia Helena usava, maquiagem, esmaltes. Hoje encontro os meus CDs, tão criticados, no seu quarto, as músicas que eu curto, no seu Ipod. Minhas roupas “horrendas” não me servem mais e estão agora no guarda roupa dela, mesmo corpo, mesmo rosto, mesma arrogância.
O mesmo choque que tive quando soube da gravidez, tive há alguns anos, quando realmente me dei conta de que havia dado origem a OUTRA pessoa. Sim, outra pessoa, distinta, embora guardasse semelhanças, com sentimentos, vontades, idéias próprias. Outra pessoa para o mundo, alguém que deixaria de ser meu e passaria a cumprir seu próprio papel. Alguém que não concorda comigo, que me critica, que reage a mim de forma inesperada, ou melhor, quase como eu me lembro de ter reagido à minha mãe!
Agora eu torço pelo bem estar dessa menina e sua vontade, por vezes, vem antes da minha. Envelheço vendo-a crescer. Sei um pouco do caminho que ela está a trilhar, mas sei também que ela não pararia agora para me ouvir. Assisto, aplaudo, recrimino, tento me intrometer nessa vida tão nova e tão dela, feliz por ela conseguir desvencilhar seu caminho do meu. Acho que a vida é isso. Enquanto isso a minha segue, sem rumo definido.

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