300br/9 – Dorival Caymmi

Caymmi e seu Violão (1959)

Existem compositores que se notabilizam como próprios intérpretes de suas canções de maneira tão inconfundível e definitiva que acabam tornando-se numa coisa só, ou seja, não possibilitam espaço para que outros artistas possam interpretá-lo tão bem. Esse é o caso de Dorival Caymmi que se confunde de maneira tão plena com sua obra que um acaba sendo cúmplice do outro a ponto de não podermos diferenciar onde começa o autor e o intérprete.

A música popular brasileira esta repleta de compositores que têm suas canções imortalizadas por outros artistas e na maioria das vezes nem sabemos a sua verdadeira autoria, porém, quando constatamos que determinada música pertence a um compositor conhecido nos admiramos e ficamos a imaginar como ele a interpretaria.

No caso de Dorival Caymmi além da perfeita identificação entre autor e intérprete verificamos que ninguém sente como ele aquilo que fez, porque simplesmente Caymmi é a própria essência de todas as suas músicas. Quem por exemplo seria capaz de cantar tão bem as belezas do mar? Senti-la de forma tão ardente? Captar seu lirismo de maneira tão cativante? Cantá-lo com tanta emoção? Só mesmo um compositor que tivesse um profundo sentimento e interação com a natureza de sua obra e admirasse as belezas das espumas e das ondas do mar para que pudesse contar seus mistérios e segredos. Dorival Caymmi é o mar da nossa canção, profundo e belo, e o mar é o próprio Dorival Caymmi, solene, infinito e inesquecível quando dele nos aproximamos.

A natureza com toda sua exuberância esta delineada nos versos desse poeta/cantor que traduz em poucas palavras o que muitos não conseguem explicar basta ouvir e sentir que “o mar quando quebra na praia é bonito, é bonito”… isso diz tudo!

Quando iniciou sua trajetória Caymmi inspirou-se no mar e ele o inspirou para fazer coisas belas, foi uma ajuda mútua, e saiu cantando em versos tudo que via na linda criação da natureza e assim foi gravando seus discos, vendo os outros cantarem suas musicas, e tornando-se o rei do mar na canção popular brasileira. Faltava porem, que suas canções fossem reinterpretadas por ele da maneira como foram feitas, apenas com o violão, e assim ele quis e assim ele fez.

Em 1959 o responsável pela direção artística da gravadora Odeon era o incansável Aloysio de Oliveira, que tinha em mente realizar um disco em que Caymmi cantasse suas canções da maneira mais simples possível, acompanhando-se somente com o violão. Contudo, foi difícil convencer a cúpula da fábrica de discos, que não acreditava no sucesso da idéia – até porque todas as músicas incluídas no repertorio do disco, exceto “O bem do mar” já tinham sido gravadas pelo próprio autor e outros cantores com acompanhamento de orquestra ou regional o que era a praxe na época. Portanto, apostar numa gravação solo seria arriscar demais. Achavam que o violão somente não daria brilho a gravação. Ficaria muito oco, vazio.

Os argumentos de Aloysio de Oliveira, no entanto, acabaram convencendo os empresários da Odeon. E como Dorival Caymmi já havia sinalizado positivamente com a proposta de se realizar a gravação, assim foi feito. E em fins daquele ano saiu o LP, considerado uma obra prima de nossa canção popular. Caymmi estava inspiradíssimo e se supera em todas as canções, sua voz grave da um tom dramático às narrativas expressas nas letras e ao mesmo tempo nos provoca uma vontade de nos espreguiçarmos e sentirmos a brisa do mar em nosso rosto, enlevando nossos pensamentos, tornando-nos felizes, deixando a vida passar contemplando as belezas da criação divina.

Este é um disco inigualável, definitivo, um diamante fino plenamente lapidado. A expressão máxima de um gênio que a Bahia criou, o Brasil abraçou e o mundo consagrou. E que deixou para todos nós uma frase e uma verdade inquestionável, cunhada por ele com sabedoria e sensibilidade: “quem vem pra beira do mar, ai, nunca mais quer voltar”. (Luiz Américo Lisboa Junior)

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