encontro

– Mãe…

– Oi?

– Se você quiser encontrar um namorado tem que fazer assim:

   1º –  escolhe um rapaz, um que você ache legal, bonito;

   2º –  vai até ele e diz  “- Oi! Eu tenho uma filha de cinco anos, e você?”

Se ele disser “Oi. Eu também tenho uma filha!”, você pede ele em namoro.

Gabi, aos cinco anos

 

 Final de semestre – 17º se não me engano -, quatro de cinco matérias. Um grande feito, digno de comemoração e de nota. Salas vazias, saguão cheio. Encontro o moço colega de sala, charmoso até, interessante, mas não o suficiente pra continuar ou começar qualquer coisa. Já não lembro se encontrei minha amiga por acaso ou se havíamos marcado algo, fato é que acabamos em uma festa no prédio em frente, espaço dela,  estranho pra mim, apesar dessa estranheza contrariar a geografia do lugar (era um prédio no meio do meu caminho). Conheci, se é que possível conhecer mesmo alguém em ocasião dessas,  alguns de seus amigos – tempos depois acabaria por me apropriar de todos,  hoje meus também. Bebida, dança, risadas, conversas, encontros, desencontros, festa.  Na saída, já dia claro, um dos moços ajeitou seu caminho pra encontrar com o meu e, caminhando, brincando, desafiando e desmontando um ao outro, enxergamo-nos, pra além de máscaras e fantasias. Experimentamos. Foi gostoso, leve, sem compromisso. De inusitado o telefonema da mulher brava, que já não era, mas parecia não o saber ou talvez simplesmente não quisesse não ser.  Outra festa, o encontro não marcado mas de certa forma esperado. Dias depois a oferta de trabalho e vemo-nos então não só na mesma sala, como dividindo a mesma mesa. Bandeira estendida – o moço que fora estrategicamente designado para trabalhar à tarde, aparece no meu primeiro dia logo cedo. Uma das colegas aponta mudanças de atitude e não só deduz como declara em alto e bom som, para a sala, corredores e demais dependências a conclusão  – paixão, ele estava apaixonado, só não se sabia ainda por quem. A essa altura, apesar dos protestos, clamores e das alegações de insanidade, o projeto alimentado inclusive por sua chefe, de um relacionamento dele com a musa local, já havia ido por água abaixo e dos almoços para o “namoro” assumido acho que foram uma ou duas semanas (ele é melhor com datas do que eu). Não dá pra dizer que foi às cegas, já que ambos fomos exaustivamente advertidos sobre as pedras do caminho – filhos (no caso, filhas), compromisso, família, ex mulher, vícios e manias. E estavam certos, todos. Topamos com essas pedras todas, machucamo-nos, desviamos de umas tantas, chutamos algumas, escalamos outras e até empurramos uns pedregulhos pra debaixo do tapete e isso sem falar nos que acabaram atirados nas cabeças desavisadas. Álcool, drogas, festa, cinema, bar. Álcool, drogas, clínicas, grupos. Trabalho, estresse, doença. Falta de trabalho, estresse, doença. Terapia, yoga, exercícios. Cursos. Concursos.  Amigos, família, solidão.  Crianças, choro, barulho, cansaço, diversão, descobertas, carinho, paixão. Paixão. Prazer. Mudanças. Viagens. Idas e vindas. Planos, crenças, desilusão. Histórias.

Certa feita explodimos. Separamo-nos – casas, coisas, rumos. Os corpos, entretanto, não entenderam dessa forma e continuaram a se querer. Fase interessante, de um namoro que começou ali, no instante da separação. Encontros secretos, cumplicidade. Isso alimentou a paixão e pronto – apesar das delícias de um relacionamento sem obrigações e compromissos, fora do casamento, casamo-nos de novo. O que assusta a tantos, esse dia a dia capaz de aniquilar paixões e impulsos, tem lá suas delícias. Sabemos sim tirar proveito e tornar gostoso, o que não quer dizer que as sensações, que os sentimentos de cada um tenham se limitado única e exclusivamente a essa relação durante esses anos todos. Esse moço, que alimenta o ego à custa de flertes, não tem pudor em se dar em troca de facilidades, em fazer promessas vãs, iludir. Inócuo se nossa cumplicidade é preservada.

Uma única vez houve uma moça. Eu sabia que seria significativo, já que a impressão que me causou quando tive contato com sua escrita foi grande também. Diferente ela. Encantei-me também, mas seguimos.

Doze anos é tempo à beça e ainda assim há surpresas. Brigas homéricas, tão definitivas quanto as inúmeras reconciliações. Há mágoa e ressentimento também, mas há ainda sentimento. Uma ou outra pedra já se transmutou em  mala mesmo, mas temos dado conta. Encontramo-nos e isto posto não sei se importa se seguiremos ou não , mas já deu pra aprender que o pra sempre se reinventa, não acaba não.

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Um pensamento sobre “encontro

  1. O texto mais espetacular que já li na vida. Tão envolvente que vivenciei cada momento, senti-me um personagem de tudo isso.

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