todo o sentimento

A urgência torna minha bagunça habitual ainda maior e, na ânsia por encontrar o que “já devia ter enviado na segunda”, surpreendo-me com um bilhete, anotação, ou algo assim, escrito possivelmente por ocasião de algum desses embruglios em que moço Jorge e eu nos envolvemos, tratando, obviamente, de mais um dos retornos ao “óbvio e maior amor de todos” com um trecho de Chico, – …depois de te perder, te encontro com certeza, talvez no tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu; apenas seguirei como encantado, ao lado teu.- Desisti de trabalhar. Lembrei-me do quanto ri há alguns meses por conta dessa mesma canção, desse mesmo trecho, se não me engano, escrito por conta de vontade tamanha sempre ali à espreita e que, enfim, teve seu momento, ainda que sustentado à penas, mas não importa, não se sabia e  sempre há desse tipo de gente que vive de gotas e por isso se pode rir. Esse mundinho é pequeno assim e pode o amor nos tornar tolos e risíveis. E é gostoso ser tolo, desde que nos valha algo. Aquele frio na barriga quando a pessoa se aproxima, a troca de pensamentos só com o olhar, o olhar esparramando carinho, o beijo quente, o dormir enroscado, o sexo gostoso, a cumplicidade, as risadas, ah… eu adoro as risadas, os abraços, os braços, pernas. E daí todo o consequente sofrimento quando, de repente, já não são dois e só um sente. E nisso o cancioneiro de Chico também é pródigo em exemplos, mas basta “Eu te amo” –        …

                       Se nós, nas travessuras das noites eternas
                         Já confundimos tanto as nossas pernas
                         Diz com que pernas eu devo seguir

                        …

                       

Por outro lado, de repente amanhece e tudo pode estar diferente. Nem parece que o ar que se respira é o mesmo de ontem. Que houve? Enche-se o peito, dá um frio na barriga! Olha-se pela janela e pronto – lá está o mundo. Estranho, diferente. Bonito! Atraente… Talvez seja produtivo andar pelas próprias pernas, percorrer caminhos outros. Momento de (re)descobertas, de começo e pra isso é importante deixar ir.

Cito  de novo trecho do livro O amor acaba, do Paulo Mendes Campos, contrariando o moço Jorge, que parece não curtir muito, “…em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.” Queiramos ou não, e não se quer, daí esse tanto de gente triste que não toca a vida. Cuidemos pois, meus caros, de curtir do amor o bom e a dor, até gozar tudo e doer tudo o que tiver pra doer, sem fantasmas mais.

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10 pensamentos sobre “todo o sentimento

  1. Alice riu. “Não adianta tentar”, disse, “não se pode acreditar em coisas impossíveis.”
    – Com certeza não tem muita prática, disse a Rainha. Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

      • Outro dia, lendo um livro sobre a vida de Buda, pensei muito no assunto. Há um momento em que ele é tentado pelos anjos das trevas, ou algo do tipo, e um dos mais insidiosos é o da dúvida. Nunca tinha pensado na dúvida e nos questionamentos como algo que não fosse bom, menos ainda como pais da ironia, sarcasmo e desdém (acho que é mais ou menos isso que constava do livro). Me identifiquei, mas segui a vida acreditando e duvidando de tudo como sempre. E, se der certo a pousada, convidarei você para explicar aos hóspedes a teoria da inexistência de café da manhã.

  2. Gosto muito disso. Porque sou pródiga em acreditar e em tentar sem contabilizar (literalmente até perder a conta) e também em confundir possibilidades e impossibilidades.

  3. Agora ficou tudo muito confuso. Gosto muito do que a Celi postou e não quero por em xeque cafés da manhã. Tampouco pensar Buda. Agora “não adianta tentar, não se pode acreditar em coisas impossíveis”, dá o que pensar, não? Pode-se acreditar em coisas impossíveis? Se realmente acreditamos, não estamos dando credibilidade e tirando a condição de impossível? Será que não fica sempre aquela duvidazinha? Não é um paradoxo tornar o impossível crível?

    • Mas é disso mesmo que se trata: de tornar o impossível, crível. Ou de aprender a viver com paradoxos (impossível?). Mas o incrível é que parece que até o crível conseguimos tornar impossível…

      • Mas é disso mesmo que não se trata: de tornar o possível, incrível. Ou de aprender a morrer com ortodoxos (possível?). Mas o crível é que parece que até o incrível não conseguimos tornar possível…

  4. Quando possível o incrível passa a ficar ali adiante, não mais este, não mais aqui. Embora acho que isso dependa dos olhos. Há o incrível aqui também, por nossas mãos. Morrer com ortodoxos, não dá pra prever, é possível, morrer como ortodoxos é crível, matar ortodoxos, incrível…, mas não o farei, passo.

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