Minhas leituras essenciais – Vidas Secas

Duca. Além da saga da família nordestina (creio que todos conhecem o livro ou ao menos de que se trata, certo?), inclui o que talvez considere o capítulo mais marcante da literatura brasileira – o da cadela Baleia. Vale reler, mesmo que somente esse capítulo, sensacional!!!

Capitulo IX – Baleia

A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caira-lhe em varios pontos, as costelas avultavam num fundo roseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchacao dos beicos dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um principio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoco um rosario de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, rocava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Entao Fabiano resolveu mata-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tencao de carrega-la bem para a cachorra nao sofrer muito.

Sinha Vitoria fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraca e nao se cansavam de repetir a mesma pergunta: – Vao bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo. Ela era como uma pessoa da familia: brincavam juntos os tres, para bem dizer nao se diferencavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameacava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitoria levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforcou-se por tapar-lhes os ouvidos prendeu a cabeca do mais velho entre as coxas e espalmou as maos nas orelhas do segundo.

Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjuga-los, resmungando com energia. Ela tambem tinha o coracao pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisao de Fabiano era necessaria e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos comecaram a gritar e a espernear. E como Sinha Vitoria tinha relaxado os musculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga: – Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao cranio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a colera diminuiu, e Sinha Vitoria, embalando as criancas, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babao. Inconveniencia deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava dificil Baleia endoidecer e lamentava que o marido nao houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execucao era indispensavel.

Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinha Vitoria encolheu o pescoco e tentou encostar os ombros as orelhas. Como isto era impossivel, levantou os, bracos e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaco da cabeca. Fabiano percorreu o alpendre, olhando a barauna e as porteiras, aculando um cao invisivel contra animais invisiveis: – Eco! eco!

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou a janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia cocando-se a esfregar as peladuras no pe de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, ate ficar no outro lado da arvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourao do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e nao apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar as catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcancou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pos a latir desesperadamente. Ouvindo o tiro e os latidos, Sinha Vitoria pegou-se a Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto.

Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e as panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o patio, correndo em tres pes. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se ai um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pes, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda. Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados as feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcancar essa cova arredada. Tentou erguerse, endireitou a cabeca e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posicao torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chao, agarrando-se nos seixos miudos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto as pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrivel queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e nao as distinguiu : um nevoeiro impedia-lhe a visao. Pos-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente nao latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptiveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra. Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preas que desciam do morro, mas o cheiro vinha, fraco e havia nele particulas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito.

Arregacou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preas, que pulavam e corriam em liberdade. Comecou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a lingua pelos beicos torrados e nao experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preas tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mao. Nao conhecia o objeto, mas pos-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradaveis. Fez um esforco para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as palpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Nao poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existencia em submissao, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaca-la. Conteve a respiracao, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caidas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridao, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhanca.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigacao dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausencia deles.

Nao se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia nao atribuia a esse desastre a impotencia em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades.

Uma angustia apertou-lhe o pequeno coracao. Precisava vigiar as cabras: aquela hora cheiros de sucuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar. as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do carito onde Sinha Vitoria guardava o cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silencio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho nao cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons nao interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanacoes familiares revelavam-lhe a presenca deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a lingua pendente e insensivel. Nao sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem dificil do barreiro ao fim do patio desvaneciam-se no seu espirito.

Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinha Vitoria retirava dali os carvoes e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chao queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preas corriam e
saltavam, um formigueiro de preas invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para tras era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doenca. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra
estava fria, certamente Sinha Vitoria tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preas. E lamberia as maos de Fabiano, um Fabiano enorme. As criancas se espojariam com ela, rolariam com ela num patio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preas, gordos, enormes.

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Um pensamento sobre “Minhas leituras essenciais – Vidas Secas

  1. Nessa linha de contar vidas num mundo agreste, onde tudo falta, esse nem é o meu preferido, mas esse episódio é mesmo pra fazer chorar.

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