Amor sem Escalas

Up in the Air. EUA, 2009 Direção: Jason Reitman. Com: George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick. 109min

Boa

Decidi ver esse filme após notar que ele vinha sendo comentado até em espaços não dedicados ao cinema. De fato, é uma dessas fitas que aspiram a ser radiografias de certos momentos históricos. No caso, centra-se a atenção num tipo de personagem que realmente traduz algo da nossa época. Trata-se de um sujeito que trabalha numa empresa de RH especializada em conceder pés na bunda a pessoas cujos (ex-)chefes optam por esconder suas cabeças quando se decidem a guilhotinar as dos outros.

George Clooney encarna – muito bem – esse sujeito, Ryan, personagem instigante que funde discurso profissional e filosofia de vida: as ideias que toma como norte para si mesmo emprega também como base de argumentação das palestras motivacionais que ministra.

Tais ensinamentos básicos consistem em considerar os vínculos materiais, os compromissos rígidos e inflexíveis, ou, no limite, mesmo a imobilidade representada pela fixação das pessoas a uma residência, como obstáculos à verdadeira liberdade a que todos têm direito. A idéia-chave é algo como (não vou lembrar da frase literal): “não se pode ir muito longe com a mochila cheia”. Em outras palavras, estamos diante de uma improvável mistura de pseudolibertarismo hippie com conformismo yuppie, uma adequação dos anseios de independência modernos ao mundo de incertezas e inseguranças típicas do turbocapitalismo. Ao menos no nível do discurso, o desprendimento material é condição sine qua non para a liberdade pretendida.

É claro que, sendo um filme de Hollywood, não poderia transcorrer o tempo todo ao sabor da ousadia: o desenvolvimento final da trama descamba para a pieguice e as soluções moralistas começam a se enfileirar, como se o antídoto natural para o desamparo existencial decorrente da escolha de uma vida desgarrada fosse o regresso aos laços comunitários tradicionais: casamento monogâmico, filhos, casinha com jardim bem cuidado.

Os créditos finais surgem ao som de uma música composta por um desempregado e especialmente oferecida à produção por ele. Anuncia-se que os chutados que aparecem às pencas na fita eram efetivamente pessoas recém-desempregadas. Se não me engano, os créditos informam ainda que quase todos esses contemplados com a oportunidade redentora da demissão já se haviam, àquela altura, reinserido no mercado de trabalho (teriam eles seguido o conselho de Ryan, aproveitando a chance para redirecionar soberana e gloriosamente suas vidas?).

À parte esses desagradáveis contratempos, o filme tem bastante a oferecer e deve ser visto.

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