NIVER DO LU

Há alguém próximo à porta vigiando, o que em tese impede a invasão, entretanto não há meios para protegê-la do que viria a seguir. O perigo estava ali, naquele cubículo e nem com suas três ou quatro maiores habilidades, conseguiria sair ilesa e isso já era sabido de todos. Aquele líquido duvidoso (ora, a dúvida não passava de um artifício para tornar a situação mais tolerável) recobria todo o piso, paredes e objetos do local. Um cesto gigante com uma montanha de papéis sujos ultrapassando o limite a que deveriam estar confinados. O pior desafio – como abaixar-se com aquela calça comprida, esquisita, larga, sem molhar a barra? Em pé não seria possível fazer nada, pois a tecnologia pouco avançara no sentido de minorar o suplício das pessoas de seu sexo e a natureza, neste quesito, não lhes fora favorável.  Percebeu que talvez conseguisse levantar as barras da calça até acima dos joelhos e segurá-las, não precisaria segurar a porta que tinha tranca, além do vigia lá fora.Conseguiu reclinar-se um pouco e pronto, funcionou. Obviamente não sem sequelas, sandálias imundas e a descrença nas mulheres. Mas valeu a pena. Agora era sair logo dali, esquecer (  e nisso era hábil) e aproveitar a noite.

Ambiente bacana – Biblioteca da Esquina – algumas mesas (vazias)  e uma banda tocando hits do rock nacional da década de 80 – prato feito pra galera com uns aninhos a mais que encheu a pista. Eventualmente a banda parava e era substituída por um DJ que parecia de outro planeta, aéreo, feliz com a própria apresentação e completamente desconectado do repertório da banda, que tocava  alguma MPB e muitas, muitas marchinhas de carnaval.

Ela pouco bebeu e, já naquele horário em que vira abóbora, sentou-se um pouco, mais para observar, pensar no que sentia ali do que para descansar. Há tempos não frequentava esse tipo de ambiente, não dançava. Tivera dúvidas sobre ir, transitar em um espaço que não era o seu, receio de que sua presença pudesse causar qualquer desconforto, mas,  por outro lado, havia o amigo que lhe era caro e a perspectiva de uma noite diferente, gostosa. Acertara. Foi muito gostoso. Pessoas leves, felizes. Teve a oportunidade de conhecer um tantinho melhor uma moça que esbanjava alegria, prazer, enquanto dançava linda em um vestido que lhe conferia ainda mais graça. Havia também um casal em sintonia tamanha que lhe lembrou o casal que ela mesma compunha e como poucas vezes vira. Dançaram. Nunca havia visto o amigo dançar. Essa lembrança, passados tantos dias, ainda a faz sorrir. O desconforto não veio, houve olhares, apreciação e o bem querer  tomou conta de tudo.

À sua direita um rapaz  um pouco mais jovem que os demais, catatônico, olhar distante, movia-se apenas para levar o copo de mojito à boca. Ao seu lado um outro moço, também barbudo, mas sem o cabelo longo que conferia  ao primeiro um certo ar de Cristo – embora este fosse muito mais afeito às teses propagadas pela figura em questão, o que não vem ao caso aqui. Fato é que o segundo rapaz – exímio atirador de carteiras – estava ali, esparramado na cadeira, num abrir e fechar de olhos cada vez mais lento (abre, feeecha, …, aabre, feeeecha,…), acordado entretanto, contrariando todos os prognósticos. À esquerda dela um moço falando de si, para si ou para o mundo (aquele mundo), algo que lhe pareceu incompreensível. De tudo dito entendeu apenas que alguém pagara a ele uma bebida, mas não conseguiu saber se moço ou moça (no estado em que ele estava achou que tanto faria).  Entendeu que ele não precisava ser ouvido, havia dançado e pulado a noite inteira, com os que gosta e estava feliz. Seu moço aquele, assim se chamavam. Saíram bem dali e nem sinal de qualquer abóbora.

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