Somos todos um livro… Somos todos um filme…

Ao ler a história da Patrícia, postada no dia 19/01, despertei algumas lembranças. Depois de um pouco mais de 35 anos vagueando por esse mundão, as lembranças empoeiradas na memória escondem-se; o esforço para recuperá-las é uma luta contra o esquecimento. No ano passado, um tio e uma tia muito queridos se foram… Tio Jorge e tia Tereza. Ele, o irmão mais velho de meu falecido pai, ela, que morreu primeiro,  sua esposa. Tinham pouco mais de 60 anos. Tinham uma história peculiar. Foram os primeiros a me mostrar que uma família não se constrói apenas através dos laços de sangue. Nossas famílias surgem segundo os percalços do destino que seguimos, nossas escolhas sempre incertas. No fim, fica o olhar eternizado pelo momento, o choro interrompido pelo abraço, o silêncio que mais parece um barulho ensurdecedor, sensações para aqueles que foram até o fundo do poço e voltaram. Porém, essa é uma outra história. Tio Jorge era motorista de caminhão e ônibus e morou durante toda a vida em uma cidade do interior de Minas. Viajou pelo Brasil transportando coisas, levando gente. Gostava de ouvir Ataulfo, Lupicínio, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves. No Morro da Rádia – assim chamado porque a antena retransmissora de uma rádio estava instalada no alto do local – ficava sua casa que outrora pertenceu ao meu pai. Lá, passei algumas férias. Fazia um calor de lascar. Eu jogava bola com a molecada dos pés descalços e escorregávamos pelas encostas do morro num pedaço de papelão. Nos fins de tarde, eu tomava o chá mate preparado pela tia, adoçado de um modo único, segredo que jamais desvendei, após inúmeras tentativas em São Paulo. Depois remexia a coleção de discos de meu tio para escutá-los  na velha vitrola. Minha primeira caninha, minhas primeiras partidas de sinuca, o boteco e seus malandros,  foram acontecimentos mineiros, ao lado do tio Jorge. Gostava de ouvir suas histórias. A que eu mais gostava era sobre um bando de malucos, no final dos anos 70,  que pegaram carona em seu caminhão, quando viajava à Bahia e que pretendiam participar de um grande encontro de estudantes… Choramos a morte de meu pai num boteco no morro, minha última lembrança ao seu lado; claro, houve a despedida na rodoviária depois de uma tentativa frustrada de tentar morar com ele. As cartas insistentes do Zé, sim, o Zé, meu irmão do coração,  me fizeram voltar a “Terra do Nunca diga Nunca”, São Paulo. Mais de quinze anos se passaram. Nunca mais voltei a Muriaé. Não fui ao seu enterro. Sua morte não se confirmou para mim como algo que se vê, apenas a notícia ruim correu e chegou aos nosso ouvidos.

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4 pensamentos sobre “Somos todos um livro… Somos todos um filme…

  1. Poxa, minha primeira vodka e meu primeiro whisky foram com um tio falecido tbém. Não tive coragem de voltar à casa deles nunca mais… Aprendi o truque de guardar copo na geladeira e continuo achando White Horse o único whisky tragável do mundo.

  2. Gosto muito do blog em seus momentos revival. Que muitas lembranças sejam reativadas daqui em diante.

  3. Adoro memórias. Acho que sou feita disso, o que atrapalha bastante, falta o resto. Conto e reconto muitas vezes as mesmas histórias. Minha hoje péssima memória resolve funcionar, para infelicidade alheia, quando encontro pedaços do que já foi, lugares, pessoas, cheiros, músicas. Cheguei a me perguntar e perguntar ao meu companheiro Jorge, se esse blog comportaria isso tudo, se não seria mais adequado um diário ou algo assim, mas, deixei pra lá .

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