Haiti: “Nég rich sé mulat, mulat póv sé nég”*

*”Negro rico é mulato, mulato pobre é negro”. Ditado popular haitiano.

A Revolução Haitiana, não pelo fenômeno em si, mas por seus resultados, parece ter sido menos gloriosa e mais afeita a uma certa tradição do que nos faz crer o que andamos lendo ou ouvindo por aí. Primeiro, vamos ao contexto:

A Guerra da Independência consumiu nada menos do que 12 anos da história do Haiti e devastou o país – vale lembrar que os revoltosos não estavam enfrentando uma tropa de pernas de pau qualquer, e, sim, o poderoso exército napoleônico. Tendo sido diretamente responsável por boa parte dessa catástrofe, a França ainda se ocupou de eliminar qualquer possibilidade de reerguimento do país ao obrigar a ex-colônia, durante décadas, ao pagamento de uma indenização que solapou a capacidade de financiamento do novo e destruído estado independente. Completa essa combinação inaugural de ações internacionais genocidas o isolamento resultante do embargo comercial que as potências interessadas na persistência da escravatura impuseram ao país durante nada menos do que 60 anos seguidos à independência.

Agora, as semelhanças com outros momentos históricos, para a qual chamei a atenção no primeiro parágrafo com o propósito de desmistificar um pouco a toada:

Em 1891, um dos mais destacados líderes da revolução, Toussaint L’Ouverture, anunciou uma constituição para o Haiti, já acompanhada de um decreto pelo qual se anunciava, em caráter vitalício, governador-geral do país. Essa autopromoção durou pouco, já que Toussaint foi rapidamente deposto e morto pelos franceses. Finda a revolução, a primeira medida do então novo líder dos revolucionários, Jacques Dessalines, foi proclamar-se imperador.

Quanto à reforma agrária, a história também não se prova idílica: só em 1845, portanto quatro décadas após o fim da revolução que riscou os brancos do mapa da ilha, foi definitivamente abolido o sistema de plantations e implementado o regime de produção em pequenas extensões de terra. Sobre esse mesmo assunto, reproduzo abaixo duas passagens pertinentes:

“A abolição da escravatura, em 1794, permitiu a estruturação e a solidificação do setor privilegiado dos negros libertos, entre eles aqueles que ocupavam altos postos no exército de libertação de Toussaint L’Ouverture, ex-escravo cocheiro que, naquele momento, era chefe das forças armadas da independência. O controle do poder militar permitiu-lhes o acesso ao poder político e, rapidamente, ao poder econômico. Depois do exílio ou do extermínio dos colonialistas brancos, os negros privilegiados, bem como os mulatos, substituíram-nos, convertendo-se em grandes proprietários de terra ou gerentes de plantações. Havia nascido o setor dos gros nèg (os economicamente poderosos) da nova oligarquia.

Enquanto isso, 90% da população, formada por negros camponeses pobres e alguns artesãos, participantes da Guerra da Independência como soldados rasos, foram obrigados, durante muitos anos, a trabalhar a terra para os novos donos do país, num regime de quase escravidão. Foi num ritmo muito lento que puderam chegar a ter a posse de um pedacinho de terra própria. Continuam, até hoje, explorados economicamente e marginalizados politicamente, sendo que, em 60% dos casos, possuem menos de um terço de hectare.”

(Grondin, Marcelo. Haiti: Cultura, poder e desenvolvimento. Coleção Tudo É História, 1985, pp. 38-9).

Outro trecho, que reforça e complementa o anterior:

“Os ex-escravos não tiveram um acesso imediato à terra. Depois da independência, a elite mulata e negra substituiu a antiga elite branca, apoderou-se de suas propriedades e quis manter a massa da população em condições de produção similar à da escravidão, como parceiros e como trabalhadores nas plantações e nas oficinas (…). Depois de lutar por sua liberdade contra os brancos, os ex-escravos tiveram que lutar, durante quase um século, contra os mulatos e os negros da elite pela terra que haviam libertado. Conseguiram a posse de pequenas parcelas de terra, mas seus direitos e títulos de propriedade são geralmente inexistentes ou duvidosos, sujeitos à intervenção dos poderosos.

Em muitas partes do país (…) os camponeses se sentem continuamente ameaçados de expropriação (…). O processo de acesso à terra fez com que o camponês haitiano não esteja seguro de que a terra que pisa seja sua. É possuidor, não se sente proprietário. Essa situação ajudou a manter nele a impressão de que o Haiti é ainda uma terra alheia, onde ele continua vivendo ‘de passagem’. Nas expressões culturais, particularmente nos contos, nos rituais religiosos e nas canções, não se sente o enraizamento à terra por parte dos camponeses. Esse sentimento se encontra, porém, na elite. Para ela, o Haiti lhe pertence.”

(Ibidem, pp. 54-5)

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5 pensamentos sobre “Haiti: “Nég rich sé mulat, mulat póv sé nég”*

  1. Pois é, e, para agora, podemos esperar a mesma desigualdade na distribuição da verba. Corrupção com a ajuda pra reforma…

  2. Adenda tola.

    A revolução haitiana da-se no contexto mais amplo da revolução francesa e não deveria nos parecer pitoresco que Toussaint Louverture se autoproclama-se governador geral do Haiti (ainda não independente) ou bem que Jacques Dessalines fosse coroado imperador (afinal são reflexos que provêm da própria metropole: Comité de Santé Publique de Robespierre e depois Napoleão). Esses títulos não desmerecem o fato de que a guerra de independência haitiana provocará a mobilização massiva dos negros no país, ativando-os políticamente, coisa que, como bem aponta o Ramiro, deixará o Haiti no limbo das nações durante os sessenta anos seguintes á independência (afinal uma nação de negros não deixava de ser uma afronta tanto para os criollos hispanoamericanos, como para os pais da pátria estadounidenses, velhinhos legais mas cientes de seus privilégios enquanto donos de escravos).

    Os grandes fazendeiros franceses tem vínculos diretos com o a cidade de Bordeaux que é o principal porto comercial com as colônias americanas e, casualidade, berço dos café-com-leite Girondinos. Os jacobinos ao chegar ao poder no inicio do verão de 1793, desfazendo-se pelo caminho de algumas cabeças girondinas, proclamarão uma nova constituição que, além de coisas tão legais como o sufrágio universal masculino, também abolia a escravidão.
    Com aguinada à direita de Thermidor e o sepultamento da revolução pela ditadura militar de Napoleão, a França volcar-se-a de novo na defesa dos interesses dos colônos (grandes fazendeiros) haitianos. É nessa hora que terá lugar a intervenção maciça de Napoleão (1802, que coincidentemente é o ano da paz de Amiens, um tratado que, pelo espaço de um ano, manterá a paz entre a Inglaterra e a França). O Toussaint tentará aguentar o tranco, praticará táticas de terra arrasada e fará penar o franceses nesse nosso tão saudoso calor tropical. No fim irá sucumbir. Aprisionado, será finalmente exilado em alguma fortaleza no cú do Judas da França onde, aí sim morrerá.

    Anedotas: O Simón Bolivar, sem tropas e sem um puto pra fazer a sua revolução, voltou-se para o governo haitiano á procura de ajuda. Este, solidário, lhe ofereceu armamento e ainda permitiu que alista-se um batalhão de soldados haitianos (uns seiscentos manos). Com eles Bolivar voltou pro Virreinato de Nova Granada e aí sim deu certo o processo emancipatório! Acham que Bolivar agradeceu?

    Sugestão de leitura: C.L.R James “Os jacobinos negros.” De vez en quando escorrega pro panegírico mas divertido.

    Filme: Gillo Pontecorvo “Queimada”. Ainda que ortodoxo (coisa que é bom ser alguma vez na vida), e que retrate uma colônia portuguesa, dá pra fazer a transposição pro Haití. A trilha sonora do Ennio Morricone, como sempre, chuta bundas!

  3. Acho que o Raul está certo. A revolução haitiana chegou ao seu limite, se considerarmos o contexto histórico em que se inseria. Os seus líderes até poderiam constituir um sistema político mais democrático, do ponto de vista social e político. Mas teriam que inventar alguma coisa, já que o modelo de democracia (?) mais próxima era a do grande irmão do Norte.
    Em alguns pontos, a revolução haitiana avançou muito mais que outros países latino-americanos, principalmente na abolição da escravatura e, principalmente, na reforma agrária. Se esta deu certo ou não, é uma outra história.
    Talvez, o grande problema do país tenha sido sua instabilidade política. As interferências externas ampliaram ainda mais o conflito entre as facções que disputavam o poder no Haiti.
    Em relação às classes sociais, as suas diferenças, se refletiam, de corta forma, na cor da da pele de seus habitantes. Afinal, os mulatos (ou gens de colour) eram filhos da elite branca no período colonial e os únicos que tinham acesso à educação formal. Isso, logicamente, se refletia na estrutura piramidal da sociedade: os gens de colours ocupando o topo, enquanto os negros, em sua maioria, a base. Porém, mesmo considerando esse fator, não dá para dizer que os mulatos fossem completamente conservadores e a grande massa de trabalhadores negros fossem sempre a favor que a revolução avançasse (seja lá o que isto quer dizer!!!!). Não se trata aqui de um conflito inserido no panorama da luta de classes mais amplo, que marcou a segunda metade do século XIX e todo o século XX, mas de homens e mulheres trazidos a força de outro continente, que tiveram que reconstruir sua identidade a partir da experiência da diáspora.
    Neste sentido, não é de se estranhar que logo após a derrubada de Dessalines, dois anos depois da independência, Alexandre Petiton e Jean Pierre Boyer dois legítimos representantes da gens de colours e que haviam lutado contra Toussaint L’Ouverture, criaram uma república ao sul que tinha ao menos pretensões democráticas, além de distribuir terras entre os ex-escravos. Enquanto isso, no Norte, Henri Christophe, ex-escravo, proclamava, ao norte, um reino autocrático e tornar-se-ia um déspota. Manteve o sistema do plantation colonial, mesclando-o, provavelmente, com tradições do continente africano na exploração da terra.

  4. 1. Obviamente não estou negando as virtudes da Revolução Haitiana. Entretanto, como bem lembra o José, em aparente autocontradição, havia, sim, alternativas historicamente viáveis para fomentar uma outra condução do processo revolucionário no Haiti. Além da recente fundação da República Sem Nome do Norte, vale lembrar também da experiência quase contemporânea levada a malogrados efeitos pela turma de Babeuf. Não seria completamente fora de questão, portanto, pensar que os insurretos pudessem ter erigido um estado inspirado pelo republicanismo jacobino radical.
    2. Sinto muito, Zé, mas não há luta social destituída de razões classistas. A possibilidade histórica de radicalização revolucionária no Haiti foi descartada, nisso acredito, justamente por força do aguçamento da diferenciação de classe das lideranças do movimento em relação à massa, fenômeno a que claramente aludem os dois trechos que citei no post.

  5. Mas o José não disse isso, só disse que é diferente da luta de classes que veio depois e ficou POP, por asism dizer. Do modelo que reza que os fodidos sempre lutam por regimes mais democráticos, por assim dizer. Chega numa sala de aula hoje e fala de um ex-escravo autocrático… Soa esquisitíssimo, para quem não tem o embasamento de vcs. Tanto que o José dá exemplo do escravo que deu continuidade a um sistema de exploração, coisa meio impensável hoje em dia…
    (só estou fazendo jus ao meu cargo de prima do Jorge e falando com segurança sobre assuntos que não domino, iéééé). (minha outra profisão é defender o José, brincadeirinha). Porém, falando isso pro Ramiro, ele lembrouq uepo, existem pobres malufistas, então luta de classes e essa bagunça desde sempre, não segue a lógica fodidos pró-justiça… E o contexto é sempre o mesmo contexto amplo, José, quem domina e quem leva ripa. Mas entendi o que vc quis dizer, vc viu.

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