saudade

Sei que temos todos peculiaridades que nos tornam ímpares e o mais ou menos depende de quem olha, do que se pretende ver, se se está distraído, alheio, olhando aqui e vendo lá atrás, ou lá na frente, tantas vezes através. Posso dizer que topei com algumas pessoas que ficaram na memória mais que outras, das quais trago talvez nome, mas nenhuma feição. São pessoas que prefiro imaginar como personagens. Personagens, mas não como nós, não atores representando seus papéis sociais, com recursos, jeitos , trejeitos, sorrisos, entonação de voz apropriados ao contexto e circunstâncias. Não personagens de dramalhões, com caras e bocas. Os personagens a que me refiro aludem a livros, livros que contam coisas de antes, de outrora, de um mundo emoldurado num retrato sépia. O “Faixa” é um deles. Alto, magro, descabelado, com uma faixa de cabelos brancos na cabeça, marca de nascença transmitida aos filhos, que lhe conferira a alcunha. Sempre sujo de graxa. Amigo do meu pai desde que eu me lembre, o que é bastante marcante já que meu pai não é um homem de amigos, tem lá os seus dos trabalhos, muitos em memórias de infância, mas ali, vivo, presente, com família e tudo e que frequentava nossa casa, só o Faixa. Ele era mecânico de automóveis, mas, na verdade, acho que vivia de bicos, não sei se cheguei a vê-lo empregado alguma vez. Passou parte da vida num projeto que acalentava de construção de um carro todo maluco. Sua casa ficava no fundo de um terrenão, no alto, na época parecia em cima de um morro – um morro próprio, um morro no quintal. Crianças, adorávamos isso. Ele tinha quatro filhos, com idades próximas à minha e dos meus irmãos. Brincávamos, brigávamos, ora na nossa casa, ora na deles. Quando estavam em nossa casa, colocávamos vassouras com o cabo para baixo atrás da porta, acreditando ser um feitiço que os faria irem embora mais cedo. Não iam. Ficavam sempre até muito tarde. Era casado com a Pina, uma mulher muito grande, forte e que eu, com o meu parco repertório, achava ser a mulher mais gorda e brava do mundo. Meu pai e ele diziam que ela era de alta periculosidade e daí a explicar-nos sobre os adicionais a que o Faixa deveria ter direito nesse casamento, mas não recebia. Quando fomos para o Paraguai ele foi conosco, no banco do passageiro, na frente, no Dodge branco. Mal cruzamos a fronteira e ele forçou e quebrou a janela do carro, o que nos rendeu quilos de poeira, de terra vermelha engolida nos quilometros à frente. Foi pra lista negra da minha mãe, mas pouco tempo ficou, não era sujeito de quem se pudesse não gostar. Uma vez encontrou um cão atropelado na Raposo, fez meu pai parar o carro, desceu, ficou segurando a patinha do bicho, rezou e foi embora quando viu que não havia mais a ser feito. Figura. Mais velho apaixonou-se, criou coragem e abandonou Pina e filhos para viver seu amor – uma senhora de pouco mais de setenta anos, sem eira nem beira, com quem passou uns dois anos dividindo restos e o que conseguissem, sob escombros. Voltou para a Pina. Esporadicamente meu pai o via e éramos alimentados com narrativas de suas (des) aventuras. Dia desses meu pai foi até a casa onde ele morava e um homem, na faixa dos 40, atendeu. Marido da Claudia. As crianças cresceram e têm todas outras crianças. Crescemos todos, envelhecemos. O homem disse que o Faixa viajou, foi embora e não voltava mais. Pronto. Mais uma. Meu pai não se conformou e quis saber pra onde ele foi. Para o céu, foi o que o homem disse, morreu há seis meses, dormindo, encolhido, como um passarinho. Fiquei triste e despertei a pior saudade – a de algo que não é. Assim, sem um tchau, um aviso, uma oportunidade para conversa. Mas, afinal, que conversa? E quem daqueles ainda está aqui? Como correr pelo quintal, esconder vassouras, ouvir e cantar gritando as músicas da Blitz dentro do carro, enquanto eles conversavam e riam. Riam muito. Agora é só memória.

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3 pensamentos sobre “saudade

  1. Você está se especializando em levar às lágrimas a ala cristã dos participantes. Até eu que já conhecia a história tenho os olhos quase úmidos.

    • Talvez não seja à toa que os membros da referida ala se eximiram de manifestações escritas. Não devem ter se recuperado do baque.

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