Bastardos Inglórios

Inglourious Basterds. EUA/Alemanha, 2009. Direção: Quentin Tarantino. Com: Brad Pitt, Christoph Waltz. 153min.

Fechei com chave de ouro o ano. Não tenho como deixar de admitir, ainda uma vez, o mérito do Tarantino diante de toda a tietagem que lhe dispensam. Esse filme é duca. Em que pese a boa grana à mão para torrar em produções de ponta como essa, rica em efeitos especiais e tal, fica patente que o cara entende muito do ramo justamente nos momentos em que abdica de qualquer penduricalho tecnológico e os dedica a um simples diálogo.

Duas sequências que achei magistrais: a primeira, logo na abertura do filme, em que o oficial nazista coronel Hanz Landa, mansinho, ultrassimpático, bem apessoado e cortês, interroga o dono de um casebre campestre a respeito da possível presença de remanescentes da perseguição da SS aos judeus. A coisa caminha num crescendo de tensão absurda, até o desfecho que o coronel demonstra ter previsto desde o início.

A segunda: o também longuíssimo diálogo entre nazistas e infiltrados numa claustrofóbica taverna alemã. Que coisa impressionante a maestria do sujeito para dirigir essas longas e angustiantes sessões de tortura verbal, de vai-e-vem de expectativas, sempre deixando sob as narinas da audiência o aroma da iminência da catástrofe.

Capítulo Brad Pitt: esse também é demais. Ficou ótima na sua incorporação ultra-reforçada daquele sotaque sulista característico (tentem reproduzir: basta afinar a voz, tapar o nariz e, dentes sempre cerrados, começar a reproduzir sons sibilares como se estivesse a manipular um fumo de palha com a língua; sucesso garantido e insuportável). A sequência em que o personagem dele tenta se fazer passar por italiano é hilariante.

Capítulo à parte – e nome a guardar: o ator austríaco Christoph Waltz, que, justamente, faz o coronel Landa. Descobri posteriormente que levou o prêmio de melhor ator em Cannes. Duvido que houvesse concorrência à altura. O cara é inacreditável.

Quanto ao filme em si, vou ter de me render à linha de comentários típica do Inácio Araújo, de quem já gostei e atualmente anda me enchendo o saco por me parecer, entre outras coisas, um crítico que costuma na maior parte das vezes enxergar o cinema como um universo paralelo e circunscrito a si mesmo: um filme está sempre falando do mundo dos filmes; cada imagem nasce apenas para denunciar, ou reverenciar o poder da imagem etc. Contudo, no caso de Bastardos Inglórios (mau negócio, a tradução do título original ao pé da letra, não?), tendo a concordar com esse tipo de interpretação. O filme retrata justamente o poder de manipulação do discurso audiovisual mais do que imperante na pós-modernidade, como que a denunciar a capacidade da mídia de reformular e distorcer a história a seu bel-prazer. A obra é uma reconstrução obviamente inverídica dos estertores do Terceiro Reich e tudo se passa como se essa revisão dos fatos ganhasse vida autônoma, alheia à própria memória histórica soterrada pela overdose de informações inúteis dos dias de hoje.  O simulacro todo assume contornos de especial ironia quando se nota o papel central atribuído aos personagens estadunidenses na trama. Ainda que retroaja a (não-)acontecimentos de seis décadas e meia atrás, o filme, por sua construção, remete a estes tempos de alegre simbiose entre dois dos maiores poderes da nossa época: o militar e o midiático. 

AVALIAÇÃO: Muito bom

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2 pensamentos sobre “Bastardos Inglórios

  1. Deixei esse, injustamente, fora da minha lista dos melhores. Não me agradou, apesar de ter achado mais uma genial direção do cara – do qual sou fã. Ao contrário de você, gostei muito de Kill Bill. Acho que, de novo, expectativas atrapalham minha entrega à um filme em si. Desde cães de aluguel busco em Tarantino certos elementos, presentes em todos os demais (confiança e quebra de, com suas consequências, p.e.) que me fascinam pela maestria com que trata o tema. Nesse não vi isso e talvez por essa razão tenha me frustrado um pouco.

  2. Esclarecendo um ponto: não é que eu desgoste de Kill Bill. O problema que tenho com ele deriva da minha natureza de pessoa que nem mesmo em tenra idade foi chegada em filmes de luta. E aí, coisas como a quase meia hora dedicada àquela sequência do megaembate da Uma Thurman com os 3.700 ninjas foram demais para o meu sensível saco. Por isso não é mera coincidência que eu prefira a segunda parte da saga. Assim mesmo reconheço a onipresença, mesmo no que me aborreceu, da genialidade do cara.

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